A minha vergonha

Me envergonha
Não ir ao teatro
Sequer cinco vezes no ano
Mesmo que pra ver
Uma dessas peças comerciais

Também me envergonha
Não ler 10 míseros livros
Ao longo de doze meses
Que fossem autoajuda
Ou a saga dos vampiros

Sinto-me envergonhado
De perder quatro horas
Do meu dia
Todo santo dia
Pra ir trabalhar

Envergonha-me mais
Os ricos ficarem
Cada vez mais ricos
E pobres continuarem pobres
Em pleno século vinte e um

Ficar entre os últimos
Nos rankings de educação
De português básico
Matemática e ciência
Também me envergonha

Assim como pagar impostos
Que mais parecem um assalto
Pra nada ter em troca
Me faz querer enfiar a cara
Num buraco, de tanta vergonha

Ser conhecido lá fora
Como o país da corrupção
Pensar na quantidade de dinheiro
Desviado de obras importantes
Ah, que vergonha, meu Deus!

Ver mendigos dormindo
Na porta de ricos bancos
E pessoas no sertão
Sem comida ou saneamento
Sem dignidade, enfim, quanta vergonha

Há tantas outras coisas
Deste meu país que
Me tiram o orgulho que
É melhor parar por aqui
Sei das vergonhas que me doem

Agora, quando a seleção de futebol
Perde de lavada na Copa do Mundo
Bem, disso eu não me envergonho!
É vergonha dos jogadores, talvez,
Minha não é, tenho nada a ver com isso

Celso Garcia