A felicidade dos outros

Tempos atrás, uma conferência de sábios foi convocada para discutir o amor. Eles precisariam decidir quais as formas aceitas de amar, e o que seria abominável sentir, e, por isso, deveria ser reprimido fortemente pelos que governam. E nem todos estavam de acordo sobre como definir amor e modos de amar. Mas, como tudo no mundo dos humanos, era preciso estabelecer regras para evitar excessos que colocassem em risco a própria espécie.
Chegaram duzentos deles, representando as várias nações do planeta, mesmo aquelas que não tinham um território definido, mas possuíam cultura própria e hábitos particulares. Era um encontro decisivo, e o que ficasse resolvido ali seria regra universal aplicável a todos os povos. Nada mais natural que todos tivessem suas vozes ali, discutindo. 
Ao iniciarem-se os debates, um diálogo logo se travou entre eles: 
- Para começar, digo que essa conferência, ao meu ver, terminará igual àquelas das Nações Unidas, sem resolução alguma, ou com uma decisão tão ampla que será difícil estabelecermos quem cumpre e quem descumpre a regra. 
- Ora, mas não deve ser tão difícil definir o amor. É o que sentimos. 
- Mas o que você sente não é o mesmo que eu sinto. 
- Nem o mesmo que eu! 
- Calma, gente. Em linhas gerais, é um mesmo sentimento. A história nos mostra que houve um ensinamento sobre o amor há muitos anos. 
- É, e o professor morreu de modo bastante cruel, lembra? 
- Sim. Mas ele sabia o perigo que corria, e mesmo assim ensinou. 
- Estamos aqui pra discutir amor, e não religião. 
- Eu concordo com ele! O que tem haver isso? 

Logo começou uma acalorada discussão, e todos falavam, mas ninguém se entendia. Então, um dos sábios conseguiu reunir a atenção de todos e disse: 
- Meus amigos, isso aqui não é um ringue de lutas. Estamos discutindo amor, e dando exemplo de desunião. Eu sei que nenhum de nós foi sempre amável. Temos questões importantes que desunem as nações, sobretudo pela intransigência dos nossos governantes. Mas aqui estão reunidos os maiores sábios de todo o mundo. Estamos aqui pra dialogar nossas aproximações, e não discutir nossos dissensos. 

Todos ficaram em silêncio, e começaram a se entreolhar. 
- Você aí, escorado nessa pilastra. O que é o amor para você? 
- Eu penso que o amor é aquilo que nos une. Tenho a impressão de que, quando falo de amor, falo do que me faz feliz unido ao que faz a quem eu amo feliz. Se não for assim, daremos margem para que, de algum modo, o ódio nasça dentro de nós, e jamais mataremos esse sentimento maléfico. 
- Maléfico, danoso, mas humano. Antes de tudo humano, meu amigo! 
- Certamente, mas o mais nefasto sentimento humano. 

O sábio que reuniu a atenção de todos perguntou a outro sábio que estava desatento ao fundo do salão: 
- E para você, o que é o amor? 
- Amor é o indefinível. Jamais chegaremos aqui a um consenso sobre a arte de amar, pois ela depende de aprendizado, e todos aqui bem sabemos que aprender é um trabalho solitário do homem, por mais que o ensinem. Uma vez aprendido, temos estabelecida uma verdade sólida nesta pessoa, e uma verdade que possivelmente será diferente da minha ou da sua. Amor é produto interior de cada um. Meu modo de amar não precisa ser uma regra matemática. Eu não sei amar como você, ou como ele, ou como aquele sábio velhinho ali sentado. Eu sei amar do meu jeito, assim como cada um de vocês tem seu próprio modo de amar. Para mim, amar é desprender-se. É saber que você só é completo com quem ama. Pode ser companhia de vida, laços fraternos, amizades bem sólidas... Tudo é amar! E isso cada um de nós entende de uma forma única e própria. Meu amor não é melhor nem pior que o seu. É minha visão sobre a vida e sobre o outro. Tão somente isso. Acho que melhor que sairmos daqui com uma definição sobre o amor será se conseguirmos compreender a tolerância às várias formas e aos vários entendimentos do amor. Para mim, amor é, muitas vezes, deixar-se para fazer a felicidade dos outros. Mas eu não sou o dono da verdade. 

Rapidamente os cochichos se alastraram pelo salão. Todos começaram a discutir a tolerância. Alguns chegaram ao entendimento de que tolerar é uma forma de unir as várias visões do amor. Não se precisa gostar nem odiar o entendimento do outro sobre o amor. Se houver tolerância, de algum modo, os problemas relacionados a esse sentimento de dissiparão. 
Então, o sábio que reuniu a atenção de todos no salão, olhou para frente fixamente. E ao abrir a boca para falar, ele te perguntou: 
- E você, caro leitor, o que acha sobre o amor?

Leonardo Távora