Talvez, o inicio

“Não, você não vai beber”. De nada adiantou. Ele pediu uma taça de vinho e foi-se a primeira. Não era acostumado com álcool, então logo se deixou envolver por uma realidade instantânea, aparentemente mais fácil. “Mais uma, por favor,”, pedia mais uma vez. “Você não vai beber mais, chega!” dizia eu com certa irritação. “Irei beber sim, me deixa!”, respondia ele autoritário. Calei-me, decidi não dizer mais nada. Iria por agora apenas olhar. “Sabe o que deve ter um gosto melhor que esse vinho?”. Espantei-me ouvindo, ainda mais pra quem ele direcionava a tal pergunta. “O que?”, perguntava minha amiga, já certa de qual seria a resposta. “Sua boca”, disse com um ar sedutor. Mordi-me de ciúmes, mas continuei com minha postura séria, disposta a não falar nada, nenhuma palavra. “Você está bêbado, eu não vou levar a sério nada do que falar pra mim”. “Eu não estou bêbado, amanhã vou lembrar e repetir para mostrar que é verdade o que digo”. Eu duvidava que lembrasse, e não só duvidava como também queria. Meu desejo era pega-lo pelo braço e levar pra casa sem dar o direito de defesa, mas tinha que continuar fingindo, não podia deixar que percebessem. “Você está muito bêbado, chega!”, gritava minha amiga. Peguei o copo e bebi num gole só o que restava do vinho. “Pronto, você não vai pedir mais nenhuma taça. Agora nós iremos ir embora!”, dizia eu enfim alguma coisa. Levantei a procura de um taxi, porém não havia nenhum disponível. Percebendo o quão irritada eu estava, ele fala comigo. Ignoro-o. Insistente, continua tentando fazer-me soltar alguma palavra ou até mesmo risos com algumas de suas piadas. Não teve êxito. Continuei calada e séria. Sem esperanças, foi reclamar com Fernanda sobre meu estado. Ela apenas me olhava. Sabia que a minha falta de palavras não era apenas por conta da bebida, existia algo mais, coisas das quais ela não iria se intrometer. “Fala comigo!”, se voltava ele pra mim.“Pede pra ela falar comigo”, dizia ele num tom infantil, como se tivesse pedindo socorro por não conseguir pegar o brinquedo qual não alcança. Confesso que me atingiu, fazendo-me ter vontade de abraçá-lo com toda força. Até podia, mas iria ferir meu momento de tentar encontrar uma resposta para o que estava acontecendo. Frente a isso, decidi continuar calada.
Ficamos nisso até aparecer um taxi. Entramos, então o deitei em meu colo e afaguei seus cabelos. “Desculpa-me”, dizia ele. “Claro, era só pra te dar uma lição”. E rimos. Eu estava confusa, e apesar dos risos, tinha vontade de chorar por não entender a reação que tive. A viagem seguiu em silencio. Consegui pensar um pouco, mas sem obter grandes resultados. Chegando, dormimos os três na casa de um tio meu. Acordei algumas vezes de madrugada e algo me fazia observa-lo enquanto descansava. Olha-lo me trazia um bem estar, deixava-me feliz, eu só não sabia o porque. Mas esse saber, ainda não era tão importante. Então, também dormi.
Tudo isso, eu só fui entender algum tempo depois.

Sandro Aragão