Outras Drogas

Ainda me lembro da primeira conversa que tive com você. Foi tudo tão doce, tão novo e tão inesperado.
Meu antigo (e primeiro Amor) havia deixado marcas dolorosas dentro de mim. Muitas delas ainda sangravam, estavam abertas. E eu precisava de alguém que cuidasse de cada uma delas.
Pobre de mim depositar uma tarefa dessas em seus ombros, não que você não fosse capaz de executar, você só não podia. Isso não era permitido no seu mundo... Só que eu ainda não sabia.
Com o tempo, pedaços seus foram sendo absorvidos pelo meu corpo. Tuas palavras me entravam pelos poros, tu transbordavas meu coração! Eu perdia tardes para te ver passar e trocar três ou cinco palavras com você.Era tão bom que eu fui me acostumando, me permitindo sem saber, sem procurar saber.
Até que um dia acordei do avesso e decidi abrir meu peito. Contar do meu vício e que por agora, viver em abstinência me faria morrer. Aceitasse o fato, porém tu não poderia retribuir. E com isso, eu agora sobrevivia de pequenos tragos, do pouco, de pequenas doses.
Eu sabia que logo, alguém surgiria tentando te tirar, me fazendo querer viver sóbria de ti. Mas, eu estava tão sedenta que não permitiria em hipótese alguma que isso acontecesse.
Minhas feridas estavam cicatrizadas. Em ti havia um pouco de mertiolate, morfina, endorfina. Dar socos em pontas de faca não doia mais.
O fato era que agora, eu sobrevivia com a dor, mesmo sem a sentir. Meu corpo estava completamente amortecido enquanto minha mente estava mais acordada do que nunca. Eu procurava saber tudo de ti, onde estavas, quando, com quem andavas.
E eu não tinha nada seu, agora, nem os pequenos tragos, as pequenas doses. Tu se afastou.
Eu aprendi a sobreviver na abstinência. Procurei paz em xícaras de café, porcurei felicidade em pequenos comprimidos, procurei esquecer passando madrugadas acordada. Eu precisava saber que para te ter, seria necessário eu aprender a ser plena com pequenas doses, e que em épocas, nem isso eu teria.
Tu voltou.
E lentamente aquela deliciosa droga tomava conta do meu organismo, trazendo de volta toda a senção que eu havia esquecido.
A vida acabou por levar algo teu, algo que tu tanto Amavas.
Parte de mim lamentava a ida. Parte de mim estava feliz em saber que agora, eu teria as doses maiores. Mas, eu não sabia quando isso aconteceria.
As semanas se passavam. Minha necessidade e minha pressa faziam que eu perdesse a esperança lentamente.
Saber que toda sua quantidade entrava em outras garotas me fazia ranger os dentes, morder os lábios de puro ódio. Mas no fundo, eu sabia que deveria esperar.
Certa tarde, tu decidiu completar.
Foi como quando “a pira bate”, ou “vem aquela brisa boa”. Foi tudo que se pode sentir, e eu gostei, eu queria que aquele efeito durasse pra sempre.
Agora, com uma frequência grande isso ocorreia. Eu estava feliz com as grandes doses. Diferente das outras drogas que usei em minha vida e que sempre precisei de mais, essa agora me saciava. Me aclamando, tranquilizando, preenchendo.
Mas, tudo sempre tem um final, tudo sempre acaba, tudo que é viciante deve acabar...
E isso aconteceu depois de um ano e alguns meses.
Deveria ser uma intervenção para eu apenas me desintoxicar de tudo aquilo, mas foi pior. Uma intervenção seria uma ajuda, e nesse caso nada ajudava.
A tua felicidade dependeria de me deixar sem as grandes doses, sem as pequenas. Sem nenhuma.
Eu não tinha mais escolha, a não ser aprender a procurar a mesma sensação em outras drogas, em outros tragos, em outros goles.
Eu procuro a mesma satisfação que tu trazia. Eu procuro sabendo que não vou encontrar.
Eu fico preenchendo até que tu possar voltar a preencher.
Eu sobrevivo na abstinência. Eu não vivo. Eu sobrevivo na tua espera.
 
Andresa Alvez