Foi-se o tempo!

Tomei outro dia nas mãos os meus pensamentos que voavam sem direção. Vazio de felicidade me perguntei pelo tempo que havia perdido e nao mais retornaria. Procurei pelo ponto na linha do tempo que marcasse a separação do período de felicidade plena da juventude para o rancor de minha velhice. O corte não podia ter sido tão seco, mas ainda assim eu o procurava nas memórias perdidas.
- Será possível que eu tenha me esquecido do tempo e de seus acontecimentos ou terá o tempo se esquecido de mim? - Era a minha dúvida de dias após dias.


A pergunta era reflexiva, mas eu ainda tinha uma pontinha de esperança quando do aguardo de dez minutos pela resposta de Cronos que não viria jamais. Pois bem. Esquecido pelo tempo e por seu senhor caminhei por alguns minutos ainda cabisbaixo por uma rua escura que dava na entrada de minha casa.
Entrei na casa fria e cumprimentei minha mãe. Agradeci com um beijo no rosto por ter me criado nas linhas cultas da mais elaborada literatura. O universo dos livros com certeza havia me preparado para aquele momento. Da moldura do porta retrato, minha mãe me viu virar as costas e subir as escadas.
- Durma com Deus meu filho. - disse ela.
- Amém mãe! - respondi em pensamento mesmo sem ter ouvido sua voz.


Acordei pela manhã e a mesa não estava posta. Mamãe ainda me olhava. Desejei um bom dia. Fui dar na padaria do outro lado da rua. Fora o melhor café da região, quando ainda era coado no filtro convencional. Quando me inventaram de usar os filtros de papel, a qualidade caiu a níveis alarmantes. A despeito do sabor intragável daquele café, tomei-o. Não me desceu como em tempos antigos. Estes não voltariam.


Voltei. Aquela noite mal dormida dava sinais de que cobraria suas dores nas minhas costas doloridas. Deitei em minha cama. A falta de cafeína no café aguado pareceu ter favorecido. Adormeci. Com toda certeza as costas ainda doeriam mais tarde. Conforme os ensinamentos de minha mãe, duas eram as coisas que não podiam ser repostas: o sono perdido e o tempo que não volta atrás.
- Foi-se o tempo!

Gustavo Dias