O espírito do tempo

Zeitgeist! É o espírito do tempo mexendo com nossas vidas. Tudo no mundo tem a inspiração da natureza. A vida sopra e tudo acontece. E num vai e vem frenético, dia após dia, as coisas evoluem. O trabalho incansável do tempo faz com que tudo cresça e se transforme. E o amor, sobretudo em sua forma eros, é a expressão mais nítida da evolução do ser humano. Sentimento egoísta que nos ensina, ao mesmo tempo, querermos alguém só para nós, e nos doarmos apenas a uma outra pessoa. 
Os homens vivem brigando entre si, num mata-e-morre sem fim. Por quê? Será que o destino dos homens é mesmo a guerra por toda eternidade? Talvez seja esse o meio mais nítido de enxergar vitórias. Guerras cujas armas nem sempre são rifles ou fuzis. Nas batalhas cotidianas, muitas vezes, a palavra proferida fere muito mais que um projétil atirado. Todos nós esperamos por dias melhores em nossas vidas, mas nos preocupamos mais com a vida dos outros que com nossa própria. 
É justamente essa ocupação com o alheio que faz do ser humano talvez o mais mesquinho dos viventes. Mas o tempo é o senhor das coisas. Não há nada que escape à transformação paciente desse mestre. É ele quem determina a duração das obras do homem, sejam elas físicas ou intelectuais. Nada pode escapar ao maior vencedor da vida. Ninguém compete com o tempo, pois quem o desafia, fatalmente perderá. E, perdendo, será esquecido nas tenras nuvens para as quais vão os fragmentos que a história não conta. 
O tempo tanto pode esconder grandes segredos, como também revelar aqueles que nos parecem impossíveis de chegar à tona. O pequeno homem o tempo tornou grande. Aquele grandioso o tempo se encarregou de fazer esquecido. Não há a eternidade para os humanos. Mesmo a história, um dia, muda de rumos. Tudo é passageiro. Suas ações, seus pensamentos, tudo, fatalmente, um dia desaparecerá. Quantas bobagens viraram grandes lendas? Quantas besteiras já foram ditas por nobres soberanos e se tornaram doutrina de uma era? Quantas realizações grandiosas viraram pó no passar das eras? Quantos de nós virarão parte da história contada em livros? Como saber se aquilo que você já não acredita realmente é algo que não vale a pena? Interrogações... Divagações... 
A roda foi uma das maiores invenções humanas. No entanto, ninguém conhece o nome do gênio que pensou nela pela primeira vez. Quem saberia dizer o nome do primeiro humano que falou de amor aos seus semelhantes? Ninguém. A grande verdade de tudo isso é que a vida é uma grande e breve brincadeira. Tão efêmera e, ao mesmo tempo, tão intensa, que não sabemos defini-la em uma só palavra. Essa palavra jamais conseguiria resumir em sua semântica o real significado de viver. 
Esse é o grande barato da vida. Não dá para traduzi-la. Apenas podemos sentir o que é viver. Estar vivo é quase como a sensação de querer parar com a mão o leito por onde corre um fio d’água. Não dá para segurar as águas da vida. Um dia ela segue seu caminho, com ou sem sua participação. Cada um de nós sabe exatamente a onda que é estar vivo, poder pensar, e poder dizer tudo o que se passa em nossas mentes (ou quase). 
Qual a sensação de ser livre? O que você sente quando está amando? Tudo isso somente cada um de nós sabemos, lá no íntimo do nosso ser. Aproveitar cada segundo de nossas vidas é uma arte que nós precisamos desenvolver, sozinhos. É como andar de bicicleta. Podem até nos dar algumas dicas, mas o grande passo quem tem que dar somos nós. Cada um ao seu tempo.

Leonardo Távora