Ele supre

Depois de cinco meses, ele sussurrou no meu ouvido: - Vamos dar uma volta na praia? - 
Me tomando pela mão, começou a caminhar calmamente.
Nossas primeiras tardes de verão sempre foram passadas na praia, principalmente levando em conta que moramos em uma cidade cercada delas. O engraçado é que na praia em que caminhávamos naquela noite, nenhum de nós havia estado durante toda sua vida.
O céu estava completamente escuro, tendo nele algumas estrelas e uma lua que chegava a doer de tão linda.
Chegamos ao que eu suspeitava ser o centro da praia. Subimos os degraus azuis e ao estar no topo, pude ver um mar bravo com ondas que se quebravam e chegavam na areia tranquila.
- Uau! – Foi a única coisa que consegui dizer ao me deparar com aquele lugar. 

Sem saber muito bem o que fazer, larguei sua mão e sentei ali mesmo, naquele chão frio de pedra. Ele por sua vez fez o mesmo.
- Está frio, não é? – Disse enquanto enrolava meus braços na jaqueta de couro.
- Sim, está sim... – Ele respondeu sorrindo enquanto passava seu braço pelo meu ombro e parando a mão em meu antebraço.

O vento frio bagunçava meus cabelos que foram arrumados minuciosamente só pra o ver. 
O mesmo vento cortava meus lábios ausentes do batom vermelho. 
Tuas mãos voltaram a desenhar meu rosto, coisa que não acontecia já fazia algum tempo. 
Teus olhos fixos em cada parte minha começaram a me deixar ligeiramente vermelha.
- Porque você está me olhando tanto? – Perguntei um pouco sem graça.
- Estou apenas te olhando... – Respondeu.
- Quando se olha muito tempo para alguma pessoa tem um motivo por trás, um propósito. – Continuei.
- É verdade... Todos os nossos atos tem algo escondido, uma intenção. – Completou.
- E no que você está pensando agora? – Perguntei sentindo certo nervoso para saber qual resposta viria.
- Em te beijar. – Respondeu calmo.

Meu corpo explodia em cada centímetro. Virei devagar meu rosto sentindo as mãos pousarem no meu maxilar.
Um beijo que eu queria que não terminasse tão cedo começou.
Um beijo calmo mas ao mesmo tempo ansioso. Um beijo esperado. Um beijo para superar, para fazer esquecer todos aqueles últimos meses e principalmente, aquela última semana tão cheia de ciúmes e Saudades.
Após longos minutos que poderiam não acabar, deitei minha cabeça no peito dele, meu corpo ainda explodia, só que agora, a cada toque, uma corrente elétrica atravessava todos meus poros.
Seus braços me cobriam e um calor que aquecia de dentro para fora se fez em mim.
Palavras que eu nunca esquecerei foram ditas também, provocando um sorriso enorme, do tamanho do mar.
Horas mais tarde ele não me desenhou apenas os lábios e sim por inteira, ligou cada um dos meus pontos e pareceu gostar muito deles.
Me desfez em pernas, coxas e mãos.
Rabiscou minhas costas por completo, destruiu cada cacho que o vento não havia destruído. 
Me despedaçou a boca, o queixo. Me fez virar nada e sorrir de prazer. Levou tudo de mim, deixando apenas leves marcas por todo meu pescoço.
Me deixou ali, por entre pensamentos, panos, pedaços e inteiros.
Preencheu todo o vazio que me restava, me inundou, encheu. Finalmente.

Andresa Alvez