Livro em Cena: "Farda, Fardão, Camisola de dormir"

Este mês encerramos as homenagens ao centenário do grande escritor baiano Jorge Amado. E esta obra dele é um símbolo da politicagem que existe no gênero humano acho que desde que o mundo é mundo. E neste livro, o cenário é a Academia Brasileira de Letras. Essa é uma obra de ficção, mas reflete algumas observações que Jorge fazia sobre os acadêmicos desde quando a escreveu, publicando-a nos anos 1950. 
Boa leitura! 

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Cena: Lizandro Leite, Mariúcia, Coronel Agnaldo

Entra o narrador. 

NARRADOR: Confiante na vitória, contudo o Coronel sentia-se decepcionado como se estivessem a esvaziá-lo por dentro. Resistências, armadilhas, enganos, palavras de duplo sentido, desfeitas, afrontas, tudo terrivelmente cansativo, desgastante. Se não almejasse com tamanha sofreguidão - ainda maior agora quando a eleição se transformara em batalha sem quartel - o título, a cadeira, o fardão, a imortalidade, abandonaria a disputa, desistiria. Inquieto, mortificado, abalada a autoconfiança, os nervos em frangalhos. Os subversivos e os suspeitos pagaram caro as consumições do Coronel Agnaldo Sampaio Pereira. Vingava-se neles da sinistra quadrilha de acadêmicos, dos que lhe negavam o voto, preterindo-o em favor de um borra-botas; dos que o ofendiam com a frieza, a ironia, a repulsa e daqueles, os piores de todos, que, dizendo-o vitorioso, desde já eleito, resguardavam-se, deixando-o em dúvida, confundido, perdido em meio a um palavreado brilhante e inconsequente. Socos na mesa, gritos, ameaças, ordens ferozes aos sequazes - os presos e suspeitos que passaram por suas mãos naqueles dias amargaram o pão que o Diabo amassou, atravessaram os quintos do inferno. 

Abrem-se as cortinas. Na cena estão Lizandro Leite e sua esposa, Dona Mariúcia. 

DONA MARIÚCIA (voz afetuosa)Andas preocupado, Lisandro. Por quê? 
LIZANDRO LEITE (sentando-se ao lado dela)É essa desgraçada eleição. Pensei que fosse fácil carregar a candidatura do Agnaldo, me enganei. 
DONA MARIÚCIA: Muita gente contra ele? 
LIZANDRO LEITE: Vários, mais do que imaginei. E velhacos... Afrânio Portela, lembras dele? Um grã-fino... 
DONA MARIÚCIA: Sei, muito simpático. Li uns romances dele, gostei. Adélia é lindo. 
LIZANDRO LEITE: Simpático? Comparado com ele, Maquiavel é um estudante de leis. Sabes ao que chegou? 
DONA MARIÚCIA: Conta. 
LIZANDRO LEITE: Não contente de arranjar um General para competir com o Agnaldo, botou Maria João a cabalar votos. 
DONA MARIÚCIA: A artista de teatro? E dá resultado? 
LIZANDRO LEITE: Basta te dizer que Paiva, o nosso querido Ministro, voto meu, de cabresto, anda querendo tirar o corpo fora. Nunca se viu uma coisa dessas, é uma falta de respeito à Academia. 
DONA MARIÚCIA (rindo): Sou capaz de jurar que, por teu lado, tens feito outro tanto. Há perigo de teu candidato perder? 
LIZANDRO LEITE: Isso não. Vai ganhar! 
DONA MARIÚCIA: Então por que te preocupas? 
LIZANDRO LEITE: Porque eu queria uma vitória por unanimidade. Aí, aparece o peste do Portela com um General para estragar a festa. 
DONA MARIÚCIA: Todas as vezes, é a mesma coisa. Essa briga feroz. 
LIZANDRO LEITE: Creio, Mariúcia, que não existe nada que seja mais cobiçado no Brasil do que o fardão da Academia. A Academia é o supra-sumo, nada se compara com ela. Somos apenas quarenta, os eleitos dos deuses, os Imortais. 
DONA MARIÚCIA: E tu chegaste lá, Lisandro. Fiquei muito orgulhosa. Mas, foi tão difícil? Não me lembro mais. 
LIZANDRO LEITE: A ocasião era propícia, fui uma espécie de candidato de conciliação. Assim mesmo, tive de rastejar. O Paiva me ajudou muito. (lamentando-se) Ah, a Academia custa suor e sangue!, mas o fardão limpa tudo, cicatriza as feridas. (virando-se para ela) És esposa de um membro da Academia Brasileira de Letras. 
DONA MARIÚCIA: Muitas têm inveja, nem escondem. Seu marido é Acadêmico, não é? Que chique! Fico toda prosa. 
LIZANDRO LEITE: Precisas ver o Agnaldo, o Coronel Agnaldo Sampaio Pereira, cujo nome faz tremer meio mundo, um dos maiores figurões do Estado Novo, oferecendo caixas de champanha francesa ao velho Francelino, Embaixador aposentado, sem eira nem beira. 
DONA MARIÚCIA: E por que patrocinas a candidatura desse Coronel? Li umas coisas sobre ele, de arrepiar. Nesses papéis que a Pru traz para casa, escondidos na bolsa. Pru anda metida com os comunistas, já te disse. Um dia desses é descoberta, nem quero pensar. Imagina, uma filha minha, na cadeia. Estou pagando meus pecados. 

Lizandro fica preocupado. Mariúcia percebe e tenta acalmá-lo. 

DONA MARIÚCIA: Deixa Pru com a vida dela como eu te deixo com a tua. Mas, explica-me por que te afliges tanto por causa dessa candidatura, por que a patrocinas, se esse Coronel não é sequer teu amigo? 
LIZANDRO LEITE: Ele manda, Mariúcia, acima dele somente o Ministro da Guerra e o Homem. Agnaldo, ele escolhe e nomeia. Eu te devo muito, te devo demais, minha querida. Já és esposa de um Acadêmico, quero que sejas também de um Ministro do Supremo Tribunal Federal. 
DONA MARIÚCIA (deitando a cabeça nos ombros dele): Por mim o fazes, agora entendo. 

O telefone toca. Nesse momento ouvimos a voz do Coronel Agnaldo, mas não o vemos. Lizandro fala com ele pelo telefone. 

LIZANDRO LEITE: Alô! 
CORONEL AGNALDO: Lizandro! Boa notícia, meu caro! 
LIZANDRO LEITE: Diga, querido Coronel! 
CORONEL AGNALDO: Acabo de receber telefonema do Carmo, marcando visita para amanhã. 
LIZANDRO LEITE: Do Presidente? Ótimo! E, daí? 
CORONEL AGNALDO: Convidou-me para jantar em casa dele, com minha mulher. Pediu-me que não divulgasse o fato. 
LIZANDRO LEITE: Não lhe disse? Convite para jantar, garantia do voto. 
CORONEL AGNALDO: Todos dizem que de fato é assim. Quis lhe comunicar imediatamente. 
LIZANDRO LEITE: Obrigado. Sabe que dia é amanhã? 
CORONEL AGNALDO: Amanhã? Deixe-me ver... Quinta-feira. 
LIZANDRO LEITE: Não uma quinta-feira qualquer. Amanhã encerram-se as inscrições. A partir de sexta, ninguém pode mais se candidatar. 
CORONEL AGNALDO: Será que o Presidente já recebeu Moreira Maginot? 
LIZANDRO LEITE: Sei com certeza que ainda não recebeu o General Moreira. Mantenho-me informado sobre todos os passos do inimigo. O General terá de contentar-se com um cafezinho. 
CORONEL AGNALDO: Podemos nos encontrar depois de amanhã para eu lhe dizer como correu o jantar? 
LIZANDRO LEITE: É claro que sim, marque a hora. Estou sempre à disposição, sou seu ordenança, meu Coronel. 
CORONEL AGNALDO: Comandante Supremo, isso sim, caríssimo Lisandro. Até mais, meu caro. 

Coronel Agnaldo desliga o telefone. Lizandro, aparentando cansaço, coloca o telefone no gancho. 

LIZANDRO LEITE: Maldita hora em que tive a ideia de ter esse coronel como meu candidato. 
DONA MARIÚCIA: Acalme-se, meu bem... Acalme-se. 

Os dois permanecem sentados. Sobe a música. A luz vai diminuindo até se apagar e as cortinas vão se fechando no mesmo ritmo.