Sempre...

Existem momentos em nossas vidas em que podemos captar exatamente o que significa “realidade”. Com João isso não era diferente. Por muito tempo ele foi apenas um ser andante, sem rumo, ainda que sua vida tivesse caminho e direção traçados. Não estou falando de sua vida social, mas dos sentimentos desse homem. Tudo ia muito bem, mas faltava, sem que nem porque, alguma coisa. Faltava alguém na vida de João. Não que ele vivesse sozinho todos os dias. Nosso amigo procurava, se iludia com algumas, apenas divertia com outras que igualmente só o usavam para própria diversão. 
Um dia, João viu sua vida se completar. Não mais que de repente, ele cruzou, através das modernidades do mundo, com aquela que viria a ser a peça que faltava para fazer dos seus dias plenos, perfeitos. Era uma mulher linda, que lhe agradou sobremaneira pelos olhos. Mas a completude não se fazia fisicamente. Era preciso mais que apenas um belo corpo, pois de belos corpos João estava cheio. Isso ele sempre encontrou. Não era alguém apenas com uma embalagem perfeita que nosso amigo procurava. João queria mais... Ele queria o que lhe faltava. 
Teresa tinha todos os atributos que faziam de um homem alguém feliz. Mas ela era diferente. Tinha um jeito de ser, de pensar, de agir, que preenchiam todo vazio que João sentia. A cada conversa ele sentia mais isso. Surreal é a melhor definição para Teresa. Era intempestiva, indefinível, meio teimosa... Ela era tudo que João sonhou e escreveu em suas escondidas poesias. Sabe, como um perfeito encaixe de almas? Era isso... Eles eram almas complementares. Mas era preciso convencer o coração disso. Não... Não o de João. Este foi tomado plenamente por aquela jovem faceira e dona de um talento único para a arte. Era preciso convencer o coração dela, pois este ainda não batia no ritmo do de João, por já ter um dono. 
O primeiro grande problema era a distância. Teresa morava longe, e isso fez com que João a perdesse mais rapidamente. Culpados? Não, nas coisas do amor eu creio que não existem culpados, nem vitimas. Logo João entendeu que esta não seria uma história fácil para ele. E nosso amigo nem podia fazer nada. A não ser se conformar com aquilo, e seguir procurando. Certamente ele acharia outro coração mais próximo, disponível, livre mesmo. Isso João combinou direito com sua mente. Mas quando o coração ficou sabendo, não aceitou, de maneira nenhuma. Não vou dizer aqui que João não sofreu nesta briga consigo mesmo. Como foi dolorido negar para si mesmo um amor que era puro, e que se negava a deixá-lo. 
Foi então que João resolveu fazer um acordo com seu coração. Foi um pacto de não-agressão. E foi assim que esse cavaleiro andante conseguiu voltar à vida. Na verdade, tudo andava normalmente, mas o sofrimento pelo amor distante e, ao menos naquele momento, impossível, fazia com que João não conseguisse enxergar alegria. Era como se lhe tivessem roubado as cores dos dias. Com esse acordo consigo mesmo, ele conseguiu voltar à normalidade. Não discutia mais com seu coração, pois sabia que, ainda que longe e sentimentalmente desligada, era Teresa a pessoa que lhe completava. João tinha esperança de que o tempo levasse o sentimento consigo. 
Mas ele parou de procurar, pois, inevitavelmente, nosso amigo acabava comparando Teresa com as novas mulheres que conhecia. Não... Não era a mesma coisa. Não lhe interessava procurar mais, afinal, e nisso o coração dele tinha razão, João já encontrara a estrela da sua vida. Era incoerente e ilusório enganar alguém para esquecê-la. Existirão pessoas que, lendo isso aqui, o chamarão de tolo. Mas, pense bem, pois se você acha isso talvez não tenha amado ninguém de verdade, com vontade, intensidade e plenamente em sua vida. 
E a vida, em seu carrossel de acontecimentos, tornou a colocar João diante de Teresa. E o amor dele por ela não tinha sumido, mas, pelo contrário, estava mais forte e sólido que nunca. E, numa dessas conversas, ele soube que ela tinha um sentimento de amor por ele, talvez já há tempos, quem sabe desde sempre. E João descobriu que Teresa estava solteira. Seria hipócrita dizer que seu coração não pulsou quando ele soube disso. Droga, ele era humano! E humanos sentem. Por mais que ele quisesse respeitar a dor, natural do fim de uma relação, que Teresa tinha, ele a AMAVA. E isso era verdadeiro... Era profundo... Era puro! 
João queria abraçar sua amada, mas vivia um novo conflito. Seu coração o mandava dizer a ele o quanto a amava, e queria poder mostrar que conseguiria a fazer feliz, mas isso lhe parecia ser um aproveitador da fragilidade de Teresa. E, não, ele não era, definitivamente, um aproveitador. João sempre viveu sabendo que não devia fazer com ninguém o que não quisesse que fosse feito com ele. E ele detestaria ser alvo de aproveitadoras. Entenda, meu amigo leitor, não estou falando de sexo, de um prazer momentâneo que se vai de modo tão fugaz quanto veio. Falo de sentimento, de amor, um sentimento que pode nem ser tão explosivo, mas que com certeza é duradouro. E também da verdade com que João sempre vivenciou quando falava de Teresa. 
Enfim, estavam frente a frente João e Teresa. Estavam se olhando muito mais que duas pessoas. Eram dois corações. Lembra? Duas almas complementares... Um sorriso, e João pegou as mãos de Teresa. Aquele era o momento em que ele não poderia fugir. Sim, era preciso falar. E João estava tomado muito mais que pela coragem. Ele estava inteiramente possuído pela verdade que vinha do seu coração, o único que nunca esteve enganado, e que se recusou a aceitar que aquilo fosse impossível. Não se podia parar de sentir o que não era uma mentira. 
- Vem comigo? 
- Pra onde? 
- Pro futuro. Quero entrar nesse desconhecido futuro ao seu lado. 
- Não sei. Acho que não estou preparada. 
- Ninguém está. Na verdade ninguém nunca está preparado. Eu também tenho medo. Mas eu sei que juntos somos capazes de enfrentar até o que nos dá medo nesse futuro. 
- Mas... 
- Pára de fugir, Teresa. Me dê uma chance! Confie em mim... 
- É... Você tem razão. Eu confio... 
- Vem... Esse é só o primeiro dia... 
- De quê? 
- Do resto das nossas vidas! 

Não tenha medo de viver, se sentir que aquilo que vem do seu coração é verdade. E não tenha medo de esperar também, pois cada coisa acontece ao seu tempo. E, se é pra acontecer, a vida vai encontrar um caminho. Sempre...

Leonardo Távora