Quem tem medo do bicho mau?

Davi nunca foi um cara que tinha problemas com animais. Na verdade até gostava deles. Mas dos domésticos, pois, como toda pessoa exclusivamente da cidade, ele convivia mais com cachorros, gatos (que gostava menos, certamente por achá-los traiçoeiros) peixes, e alguns destes pequenos roedores que foram transformados em animais carinhosos. Mas, certamente de igual modo a todos os urbanóides, tinha problemas com aqueles animais “asquerosos”. Na verdade era medo. E o medo transforma a nossa visão da realidade.
O maior medo dele eram as aranhas. Sim, aquele animal de oito patas. Bem, ele pensava do seguinte modo: “Elas tem oito pernas, e eu duas. Tem oito olhos, e eu dois. Logo, são seres superiores a mim”. Claro, todo medo não é algo engraçado. Mas as situações que ele vivia por causa deste problema eram sim uma verdadeira comédia. A história que agora lhes contarei se encaixa perfeitamente nisso que falei. Por favor, tente não rir muito do drama do nosso amigo.
Tudo começou quando Davi numa noite, já em altas horas, foi até a cozinha para tomar um copo de leite, pois este era seu ritual de preparação para dormir. Mas naquela noite o sono nem passaria perto desse nosso amigo. Ao olhar desapercebidamente para o chão, viu que uma dessas aranhas, das grandes, estava conseguindo, com muito esforço passar por debaixo da porta. Aquela cena o deixou travado, com muito medo. Aquela aranha, certamente peçonhenta, era mesmo de amedrontar qualquer pessoa. Só mesmo os biólogos poderiam sentir algum carinho por aquele bicho.
Ao conseguir adentrar, ela viu Davi. Os dois se olharam como os famosos pistoleiros do velho oeste faziam no cinema. Nenhum movimento se fez no lugar. Eles ficaram ali, se encarando, vendo quem tomaria a ação primeiramente. Aquela seria uma noite de batalhas. Quem venceria? Difícil resposta. Davi tinha a vantagem de ser um humano, e poder contar com todo tipo de parafernálias que os seres humanos utilizam para afastar perigos, desde vassouras e chinelos ao infalível veneno. Mas a incrível aranha, uma caranguejeira provavelmente, era veloz, e se conseguisse se esconder debaixo de algum móvel estaria salva e poderia arquitetar um plano de aniquilamento enquanto Davi dormia.
Veneno! Esse seria o mais fácil. E era preciso muito. Uma latinha das grandes, pelo menos, para garantir. E Davi foi então, com muito cuidado à procura do veneno. Ao encontrar, uma decepção. O vidro estava no fim. Como matá-la? Era preciso bolar algo logo, antes que a aranha conseguisse se esconder. Daí ficaria impossível até dormir, pois seria preciso ficar alerta pra quando a vilã resolvesse atacar de modo vil e covarde. Bom, pelo menos no pensamento de Davi era assim. Naquele momento ele estava dominado pelo medo. E o medo tem o poder de distorcer nossa percepção da realidade. Ficamos em alerta, acho que até mesmo para nossa percepção.
Davi resolveu então “encurralar” sua inimiga pública número um em um canto sem móveis. Aos poucos foi empurrando-a, sob a ameaça do veneno, pois, claro, ela não sabia que ali quase não tinha nada. Na vida, é preciso jogar com o medo do nosso inimigo antes que ele jogue com o nosso. Davi sabia disso. E resolveu enfrentá-la. Fez uma cara de malvado. E aos poucos foi conseguindo seu intento. A terrível aranha foi ficando sem ação. Davi estava ganhando a arada. E isso era bom. E se o veneno não desse certo, a vassoura estava ali para trabalhar.
Devidamente protegido no alto de uma cadeira, ele despejou o resto do veneno que tinha no vidro naquela sua inimiga temível. Ela ficou branca com o veneno em cima do seu corpo. Isso a deixou imóvel. Davi ficou feliz e pensou em gritar a vitória, mas desistiu disso, pois todos na casa dormiam. Seus pais ficariam muito bravos se acordassem por causa da morte de uma aranha. Mas Davi estava feliz, pois seu problema havia acabado. Enfim, ele poderia tomar o leite e dormir sossegado. Mas aquela batalha ainda não tinha terminado.
Incrivelmente, a aranha se mexeu, e começou a caminhar para debaixo de um móvel perto. Davi ficou assustado. Como poderia essa coisa não morrer. Era biônica? Que desesperador. Ele então lançou uma vassourada nela, para impedi-la de chegar a um lugar seguro. Com sorte, ela morreria com a vassourada. E Davi ficou algum tempo com a vassoura pressionando a aranha. O silêncio era ensurdecedor. Será que, agora, ela finalmente tinha morrido? Ele foi ver. Tirou a vassoura de cima dela. Ela andou novamente. Num ato de bravura, Davi deu várias vassouradas naquela aranha asquerosa. Agora sim, ela encolheu as pernas, morta.
Mas era preciso garantir a morte dela. Davi então recolheu aquele corpo com uma pá de cabo bem grande. Levou para fora. Pegou uma escada, um vidro de álcool e um fósforo. Colocou a aranha na calçada, jogou álcool e ateou fogo nela. A aranha queimou até virar cinzas. Agora sim, Davi poderia dormir sossegado. Aquela guerra havia chegado ao seu fim. Finalmente, o perigo já não existia mais. Ele vencera sua inimiga, seu maior medo traduzido em um animal de difícil convivência.
Na manhã seguinte, ao acordar, Davi ainda sentido o sabor da vitória. Na mesa do café da manhã, cumprimentou todos, com um sorriso normal dos vencedores. Sua mãe, já desconfiada, lançou logo a pergunta:
- Davi, você sabe quem colocou fogo na calçada?