Padaria

O único momento do dia em que tínhamos paz entre nós dois era quando íamos comprar pão... Sempre depois que todo mundo voltava da praia.
Alguns descansavam, outros iam assistir TV... Enquanto ele tomava um banho rápido na suíte, eu fazia o mesmo no banheiro social, tirando a areia e o que restava de filtro solar do corpo com muita água gelada! Colocava shorts, camiseta, chinelo e esperava pelo chamado: - Vem, vamos até a padaria... - E estendia a mão.
O caminho era curto, mas pelo fato de meus passos serem lentos, esse se tornava maior.
Momentos vagos de silêncio se faziam naquela rua reta. Os carros cessavam e nossas vozes também. O silêncio nunca nos incomodou, mas naquelas semanas silêncio significava "quero te contar uma coisa, mas ainda não posso". Significava "isso só pode ser mentira."... Significava indiretas, provocações e algumas madrugadas com choros contidos.
A praia nunca se fez tão triste para mim como naquelas duas semanas de verão.
A era padaria pequena e estreita, a fila dava até a rua.... Era a única mais próxima, não tínhamos outra opção.
- Doze pães, por favor... - Eu ficava em silêncio enquanto ele fazia o pedido e a atendente nos olhava sorrindo. Deveria estar pensando que éramos um casal de namorados... E para ser sincera, ninguém ali pensava o contrário. Se eu pudesse pegaria todos esses pensamentos, faria deles um só e tornaria realidade. Mas, o que os olhos daquele povo de longe pensava era bem diferente da realidade...

Com a sacola de pão em uma mão, e na outra meus dedos magrelos entrelaçados nos seus, nós fazíamos todo o caminho de volta.
Eu gostava de olhar para o céu, o mesclado de cores fazendo mais um dia chegar ao fim me dava vontade de sorrir. A brisa leve balançava meus cabelos, e este mesmo vento, fazia vir dele até mim o cheiro do creme por culpa de ter saído do banho a pouquíssimo tempo.
Ele ria de ver o meu jeito ao apontar os casais de namorados voltando para a casa... Eu só conseguia imaginar que poderíamos ser um deles.
Ao se aproximar do portão, eu sentia me perder... Sentia um pedacinho de vazio que me ocupava por inteira. Eu sentia ser um, e não mais "nós".
Sentávamos a mesa, todos juntos para o café, e tudo voltava ao normal.
Um sorriso bem colocado no rosto e pronto, ninguém notaria que por dentro, tudo dava errado. Ninguém iria perceber que eu quera fugir dali, sumir. Dormir e acordar um ano depois.
A minha única felicidade se encontrava naqueles instantes a cada fim de tarde, na rua depois da praia.

Andresa Alvez