Inventando: "A separação adolescente"

Escrever é sempre bom. Eu, pelo menos, gosto bastante. É tão bom deixar a mente viajar, voar por mundos e cenários muitas vezes melhores que os nossos cotidianos. E o melhor de tudo é notar que tudo isso que existe nesse blog tem leitores que apreciam muito o que não só eu, mas todos os autores aqui criam. Essa seção de roteiros originais é uma prova disso. Todo mês a inspiração vem dos comentários. Uma vontade imensa de fazer sempre melhor. Nem sempre é possível, mas o objetivo é esse. Tomara que a cena desse mês esteja do gosto de vocês. 
Boa leitura!


CENA: CASA DE CATARINA / EXTERNA / DIA

O ano é 1985. PAULO (16 anos, de média estatura e um pouco encorpado) e CATARINA (15 anos, loura, da mesma altura de Paulo e franzina, com rosto muito delicado) estão sentado na calçada em frente à casa dela. Eles têm olhar triste, e não se olham. A trilha tem um tom triste, mas não sombrio. Paulo Olha para Catarina e faz menção de falar por duas vezes, mas se detém. Em nenhuma das vezes ela olha para ele. Catarina só olha para o chão, sem sorrir. Na terceira tentativa, ele toma coragem, dessa vez sem olhar para ela, e diz: 

PAULO 
Então você vai embora mesmo? 

CATARINA 
Tenho que ir, meu amor. Tenho que ir. É o trabalho do meu pai. Viajar o mundo, sem parada certa, pelo país. 

PAULO 
Eu vou morrer de saudades de você. 

CATARINA 
Eu também. Vou sentir muita falta do meu menino da fala bonita... Mas eu quero que você prometa que vai ficar bem! 

PAULO 
Vou tentar, Catarina. Não posso te prometer isso... 

CATARINA 
Eu quero que você fique bem. Eu estou com meu coração apertadinho, mas vou lutar com todas as minhas forças pra ficar bem e pra nunca te esquecer. Não quero e não vou te esquecer nunca, amor de minha vida. Não me esqueça também, tá? 

Paulo dá um salto na direção de Catarina e a beija com intensidade. Lágrimas começam a rolar dos olhos deles. 

PAULO 
Eu posso ficar velhinho, mas eu nunca vou te esquecer, meu amor, primeiro amor da minha vida... Primeiro e único! 

CATARINA 
Você fala muito bem. Tomara que isso dure sempre contigo. (pausa) Eu não quero ir, Paulo. Não mesmo. Mas não tem como dizer isso pro meu pai. Somos muito novos. Ele não entende isso de sentimento. 

PAULO 
(abraçando-a com carinho) 
Pode ir pra longe. Seu pai pode nos afastar o quanto for. Eu vou te encontrar novamente. Não vamos perder contato. Como é difícil saber seu telefone, me mande carta de onde você estiver pelo mundo. 

CATARINA 
Isso você nem precisava me pedir. 

Chega o Sr. ARAÚJO MOTTA (Homem de 56 anos, com cabelos meio grisalhos e barba, muito bem vestido). Ele vê a cena e se comove. 

ARAUJO MOTTA 
Não pensem que eu sou um carrasco, meninos. Não estou querendo estragar o romance de vocês. Mas entendam. São muito jovens, e Catarina precisa aprender novas culturas pelo mundo enquanto eu lhe puder proporcionar isso. 

Paulo fica de pé e estende a mão para o Sr. Araújo Motta. 

PAULO 
Eu entendo. Meu coração não aceita, mas eu entendo sim. 

ARAUJO MOTTA 
Você é um garoto de ouro, Paulo. Sempre gostei de você, e continuarei te admirando. Espero que não fique com muita raiva de mim. 

PAULO 
Só não quero perder contato. 

ARAUJO MOTTA 
Não. Eu acho que não perderá. 

Eles olham para Catarina e ela está chorando. 

ARAUJO MOTTA 
Não vou pedir pra você parar com isso. Mas precisamos ir. 

CATARINA 
Tá certo, pai. Vamos. 

ARAUJO MOTTA 
Eu vou deixar vocês se despedirem enquanto tiro o carro da garagem. 

Ele sai e os dois ficam ali. Num rápido desfoque da câmera vemos VLADIMIR (16 anos, magro e alto, com cabelos anelados) chegar. Ele vê os dois abraçados e pára. Prefere não se aproximar. 

CATARINA 
Fica bem, tá. 

PAULO 
Pode deixar. 

Eles se beijam mais uma vez e o carro chega, com o Sr. Araújo Motta e JOANA (Senhora loura de meia idade, muito bem vestida e maquiada), mãe de Catarina. Catarina se despede mais uma vez de Paulo e entra no carro, que sai. Num chicote vemos o olhar dela pelo vidro traseiro, e o dele, numa perspectiva de dentro do carro. Vladimir se aproxima de Paulo, que chora. 

VLADIMIR 
Calma, meu amigo... Um casal tão bonito desses não merecia esse fim... 

PAULO 
O mundo não acabou, eu não morri, e nem ela. A vida dá voltas. E eu tenho certeza que nós vamos nos encontrar de novo. Um dia, nós vamos nos reencontrar novamente. Pode acreditar, Vladimir... 

VLADIMIR 
Nossa, Paulo, você fala com uma convicção que me dá até medo. 

PAULO 
Eu estou sentido, meu amigo. Eu ainda encontro o grande amor de minha vida outra vez, nem que esta seja a última coisa que eu faça. 

Vladimir arregala o olhar. Paulo se vir para a direção do carro, que já está bem longe. 

PAULO 
Essa história não acaba aqui! 

CORTA PARA: