Livro em Cena: "Ser Clara"

Este mês eu tenho o prazer de trazer aqui nessa seção o texto da Janaína Rico. Como prometido, decidi o “Livro em Cena” desse mês na Bienal do Livro de Minas. Janaína, além de romancista, escreve peças de teatro e roteiros para cinema. Ela ainda é editora-chefe da revista “Mulheres que comandam” e colunista do site “Mundo Mulher”. Sabe do que está falando no livro deste mês, “Ser Clara”, que vale a pena ser adquirido e devorado, de tão empolgante e dinâmica que é a história. 
Boa leitura!

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SHOPPING, ENTRADA DO CINEMA /INTERNA/ NOITE 

CLARA chega ao shopping correndo, atrasada. Ela procura por LAURA, mas não a encontra à primeira vista. Clara pega o celular para ligar para a amiga, levanta os olhos na direção da lanchonete em frente ao cinema e a vê tomando água com limão. Ela vai rápido na direção de Laura. 

Clara: Amiga! Desculpa. Me atrasei muito, né? 
Laura: Oi! Claro que não. Ainda tem tempo até começar o filme. Senta. 
Clara: Ai, que bom, porque eu estou faminta. Só um minuto que vou pedir alguma coisa pra comer. 

Ela coloca a bolsa na cadeira e vai fazer seu pedido. Depois de um tempo volta com a bandeja com o lanche. 

Clara: Pronto. Agora tô bem. 
Laura: Ô, se tá. Tava com fome mesmo, hein. 
Clara: Tô só com o almoço. O trabalho foi uma loucura hoje. 

Clara começa a comer e bebe um pouco do refrigerante. Laura a observa comer, e decide ir direto ao assunto: 

Laura: Clara, acho que tô grávida. 
Clara (disfarçando que já sabia): Que ótimo, Laura. Quando você vai fazer o exame? 
Laura: Ah, sei lá. Morro de medo de agulha. 
Clara: Faz o teste de farmácia, ué. A gente pode comprar agora mesmo, aqui no shopping. 
Laura: não quero fazer hoje. 
Clara: Tem quanto tempo de atraso? 
Laura: Ixi... Nem sei! 
Clara: Tem que ver isso logo. 
Laura: É, seu sei. 
Clara: Mas, como é a sensação? 
Laura: Ah, é estranho. Eu tô meio aérea com isso ainda. Não caiu a ficha, sabe? Um bebê. Tudo muito novo pra minha cabeça. 
Clara: É eu imagino. 
Laura (encerrando): Pois é. 

Elas ficam em silêncio por um momento, enquanto Clara termina de comer seu sanduíche. 

Clara: Laura, eu acho que eu estou na idade de casar... 
Laura: Como assim, mulher? Isso não tem idade. 
Clara (debochando): Ahá... Fácil pra você dizer, né. Já é casada. Mas é sério. Sinto que o tempo está passando. To perto dos 30 já... Vou ficar pra titia. Amanhã já faço 28. 
Laura: Que besteira menina. Isso não existe mais não. 
Clara: Claro que existe. 
Laura: Mas você e o João Thomas estão em um relacionamento sério. Tudo indica que vai dar casório. 
Clara: Só que eu não posso enrolar. Se a gente resolver casar hoje vai levar pelo menos um ano nos preparativos. Depois mais um ano de convivência de casados, e depois mais um tentando engravidar. Já vou estar com mais de 30. Aí a gravidez vai ter que ser cheia de cuidados. 
Laura (rindo muito): Quanta abobrinha você acabou de falar, Clara. 
Clara: Olha só: Já me formei, já curti um monte, já bebi pacas, já usei drogas e vi que não nasci pra isso, aproveitei a vida e já tenho um emprego. Agora eu quero casar e ter filhos. 
Laura (direta): Bom, então você precisa trabalhar pra isso. Na verdade, você precisa traçar um plano estratégico, para que o João Thomas te peça em casamento, achando que a ideia partiu da cabeça dele. 
Clara: Mas não é isso que eu quero. O problema é que eu sei que quero casar, mas não sei se o noivo que eu quero é o João Thomas. 
Laura: Ai meu Deus!!! Você é completamente louca. Sua inteligência sempre foi duvidosa, mas dessa vez você se superou. Ele vai ser o melhor marido do mundo. 
Clara: Se vai ser, porque já não foi? 
Laura: Porque ele não combinava com a ex-mulher. Mas vocês dois são um casal lindo. Dá gosto de ver. 
Clara: Será? 
Laura (encarando): Tá faltando um pouco de confiança no próprio taco aí, hein. 

Clara se lembra do cinema. 

Clara: Eita, a sessão já deve ter começado!
Laura: Meu Deus!!! Perdemos o filme. 
Clara (gargalhando): Tá vendo, a gente se esquece do tempo discutindo vida aqui. 
Laura: Quer saber, eu gostei muito mais dessa nossa conversa que se tivéssemos partido pro cinema direto. 
Clara: É verdade. Eu também gostei. De alguma forma essa conversa me abriu a mente. 

Laura, de relance, vê LÉO passando olhando uma vitrine. 

Laura: Olha quem está ali! O Léo. 

Clara arregala os olhos assustada.