A lembrança

- Me dá sua mão? 
- Pra quê? 
- Confia! 

Foi assim que ele a pegou e a levou daquela praça em que estavam. Ela, sem saber para onde iam, confiou nas certezas que ele tinha no coração. Sabe quando as pessoas nos dão conforto para as seguirmos? Pois bem, era o caso de Diogo e Melissa. Um casal que se formou numa dessas inconceptas curvas que a vida possui, quando não queremos ou achamos que o amor não é para nós e ele surge do nada, numa pessoa que talvez nem imaginássemos que poderíamos um dia amar. 
Diogo é um homem realizado. A vida se estabilizou ali pela sua inteligência e curiosidade, transformada numa vontade incontida de conhecer o novo, além do que está posto no mundo. Graças à sua inteligência, ele conseguiu vencer. Diogo vem de uma família nada abastada. Lutou para estudar e se formar naquilo que gostava mais, que era mexer com computadores, criar novas tecnologias, coisas assim. Graças à sua inteligência inventou um novo software revolucionário, e com isso ganhou dinheiro suficiente para vivenciar experiências bastante enriquecedoras. 
Quando conheceu Melissa, Diogo já estava bem mais maduro. A fase amalucada, com traições, várias mulheres ao mesmo tempo e diversões baratas e rápidas estava de saída de sua vida. Mas, claro, como quem faz a fama deita na cama, ele ficou estigmatizado. Era o playboy nascido pobre. Muitas vezes fora chamado de deslumbrado. Palavras... Apenas palavras. Não refletiam-no na integralidade do seu ser. Toda essa loucura aparente era nada mais que uma armadura criada por ele pra viver diante da sociedade de máscaras que temos. 
Melissa soube olhar por trás dessa máscara. Ela teve paciência para conhecer, desbravar e desvendar o Diogo que existia dentro do próprio Diogo. E olha que muitas até tentaram, mas não tinham a habilidade do charme de seu jeito e da meiguice do seu olhar. E ao querer entrar nesse mundo diferente do dela, Melissa acabou conquistando de modo indelével o protegido coração de Diogo. Um lugar raramente invadido por alguma mulher em toda a vida desse brilhante descobridor do futuro. 
Não demorou muito e eles estavam morando juntos. Sim, eu sei que casamento com véu e grinalda é algo bonito e aceito como padrão. Mas, por favor, não se horrorize. Essas coisas não são para todos. E o amor deles não pedia tudo tradicionalmente. Melissa não era dessas mocinhas de novela que sonham casar-se no último capítulo com seu grande amor. Ela era bem real e pautava as ações da sua vida de modo muito realista. Não, definitivamente, eles não precisavam casar-se em algum lugar bonito para serem felizes. A felicidade não vem de fora para dentro. Ela deve ser despertada dentro de nós. 
Chegando em casa, eles não fizeram o de sempre. Normalmente ele ligaria a TV, sentaria no sofá e ficaria vasculhando os canais a cabo, em busca de algo que o interessasse. Ela iria até o quarto, vestiria uma roupa mais confortável e correria para a cozinha para procurar alguma guloseima apetitosa para o fim de tarde. Sentar-se-ia ao lado dele e provavelmente veriam algum bom filme que estivesse passando nos inúmeros canais. 
Mas, naquele dia, Diogo tinha preparado algo diferente. Resolvera fazer um jogo com ela. Escondeu diversos bilhetes pela casa, cada um com dica para o próximo ponto. E só falou do primeiro bilhete, que estava em cima de sua escrivaninha. Melissa foi até lá, o leu, e, a parti daí foi seguindo os passos que cada bilhete informava. Ao final da brincadeira, chegou ao seu coração de pelúcia, que ele tinha dado a ela no dia em que começaram a namorar. 
Nesse momento, Diogo apertou o “play”, e começou a tocar no aparelho de som “Quem sabe isso quer dizer amor”, do Milton Nascimento. Aí ela ficou com medo. O coração era algo que ela gostava demais. Se Diogo o tivesse estragado pra fazer alguma surpresa, ela certamente ficaria muito chateada. 
- O que você fez com meu coração, Diogo? 
- Calma, não estraguei nada. Olha direito! 

Então ela pegou o coração, e estava grudado nele um bilhete que dizia assim: 
“Quando te dei esse objeto, queria que sentisse como se meu próprio coração estivesse em suas mãos. Mas ele sempre teve um significado maior. Se você olhar direito, nele há uma abertura pequenina que fiz para guardar um outro objeto especial para você. Abra e pegue” 

Então ela abriu um buraquinho pequeno que ele fez na costura do coração de pelúcia e lá dentro tinha um anel muito singelo, de brilhante, e mais um bilhete: 
“Um anel não é resumo nem prova do meu amor por você, mas quero que seja a mais grata lembrança do primeiro aniversário do dia em que encontrei a felicidade no sorriso, nos braços e no seu olhar. Quero que esse seja só o primeiro de muitos presentes que celebrem, a cada ano, e de modo crescente, o nosso amor” 

Ela não esperava que ele se lembrasse desse modo do aniversário do relacionamento deles. Todos os homens certamente seriam lembrados ou fariam surpresa em algum desses restaurantes, ou até mesmo em motéis da cidade. Mas ela jamais imaginaria que ele pudesse fazer uma declaração tão encantadora como aquela. Muito mais que o valor do anel, aquele momento era impagável, imensurável. Aquele sentimento não tinha preço. 
Ali, Melissa teve a certeza de que encontrara em Diogo o homem com quem gostaria de passar o resto da sua vida.

Leonardo Távora