5 Dores Brancas

Os cinco comprimidos brancos se acomodavam bem na palma da mão.
O certo seria ingeri-los logo, beber toda a água que coloquei no copo e me deitar.
E por fim, nunca mais acordar.
Fiquei ali, olhando para minha mão e deixando um filme se passar na minha cabeça.
Lembrei de tudo que causei da última vez que tinha tentado ir: Alguns dias no hospital, lágrimas de quem me Amava e palavras. De todos os tipos, exclamações.
Brigar não era a melhor saída, mas foi o que alguns fizeram. Outros ficaram perplexos com meu ato, e devem ter pensado que eu estava possessa por algum demônio para tentar isso.
Não existiam demônios dentro de mim, e sim, do lado de fora.
Todos deixavam remédios longe de mim, e a cada passo meu, uma nova frase de repreensão era dita. Eu não queria ouvir brigas, e sim, ouvir um simples “eu te entendo”.
Eu não queria motivos para ir, eu já tinha suficiente. Eu queria motivos para ficar.
Eu ouvia apenas o barulho da rua, aqueles barulhos desconhecidos que só acontecem durante a madrugada, que geralmente te assustam... Mas ali, naquela cozinha tão vazia de mim, e tão cheia de dor, eles eram agradáveis.
Eu precisava de algo. De alguém. Quando por fim, eu o pude ver por entre meus pensamentos sombrios.
Ele certamente me entenderia, mas não queria que eu fizesse.
Fechei meu punho.
Eu queria fazer, eu precisava, mas eu não devia. Agora, não mais por mim, mas por ele.
Talvez o mundo ainda deva me ler, me ouvir e conhecer o outro lado. Mas, em certas madrugadas, parece ser tão mais fácil dormir para sempre. Isso não faz de mim uma pessoa fraca, só alguém cansada de tanto lutar.
Caminhei como se tivesse todo o peso do mundo em meus ombros, abri meu punho e joguei fora cada comprimido.
Me apoiei na porta procurando forças para continuar, para não ir.
Eu voltei, no meio do caminho. Mais uma vez eu fui e voltei.
Eu poderia caminhar até a luz, mas ele estava no meio dela, e a única coisa que eu via era sua sombra. E enquanto ela estiver ali, enquanto ele me impedir passar, eu não vou.
Enquanto ele ficar, eu não durmo.
Não prometo, mas não o faço.

Andresa Alvez