Inventando: "Inconfidentes"

A cena a seguir, uma ficção, retrata o momento anterior à ação dos inconfidentes, que seria realizada no dia seguinte, quando a coroa portuguesa faria a derrama, um imposto cobrado pela coroa sobre a produção de ouro das minas do Brasil. O assunto já estava meio que decidido, e Tiradentes só queria mesmo acertar as posições dos inconfidentes no grande dia. Mas Joaquim Silvério dos Reis também estava lá, pronto pra melar todo o plano. 
Boa leitura! 

CENA: CASA DE TIRADENTES / INTERNO / NOITE 
(Ambientação: a casa é em estilo barroco, com mobiliário rústico e iluminada por velas e lamparinas) 

TIRADENTES (alto, branco, magro, 40 anos, de cabelos curtos e bem penteados, vestido com a farda de Alferes) está com todos os inconfidentes rodeando uma mesa grande, onde encontram-se papéis e um mapa. A imagem vai aproximando até ser possível ouvir o que eles conversam. SILVÉRIO (baixo e barbudo, 55 – 60 anos, sempre com um chapéu na cabeça) olha tudo com descrença. 

TIRADENTES 
Então ficamos decididos assim. Silvério, Resende Costa, Oliveira Lopes e os seus vão, na primeira hora do dia, tomar a casa da moeda. Enquanto isso, Padre Rolim e o Cônego Vieira correm as principais ruas, alertando e chamando a população. Eu, Sargento Toledo, Claudio Manoel e Tomás Antônio, junto com o Domingos de Abreu, vamos ao palácio do Governador para depor o Visconde de Barbacena. 

SILVÉRIO 
Isso é loucura, Tiradentes! Não podemos nos dividir tanto assim. Somos em muito menor número que os homens do Governador. Isso é suicídio. 

TIRADENTES 
Justamente por isso devemos adotar essa tática, Silvério. Não estamos nos dividindo, mas dividindo o exército deles. Eu, sinceramente, não compreendo seu medo. 

SILVÉRIO
Não é questão de ter medo, Tiradentes. É apenas ser racional. Entenda... Não dá para vencermos as forças da coroa com um punhado de corações apaixonados pela causa. E porque vais com Claudio Manoel e Tomás? 

TIRADENTES 
Já vamos eu e o Sargento como militares. Precisamos de homens das letras para legitimar a ação. O Visconde é um homem muito astuto. Não podemos deixar fios soltos que o permita resistir no cargo. 

Todos olham para Silvério. ALVARENGA PEIXOTO (alto e forte, 50 anos, vestido com roupas próprias da lida na mineração) aponta o dedo para a casa da moeda, no mapa. 

ALVARENGA PEIXOTO
Tiradentes, meu bom, eu quero participar da tomada da casa da moeda. E coloco meus escravos à disposição para o serviço. Claro, não poderei deslocar todos, já que precisaremos manter minha mineração para o caso de o Visconde resistir. A guerra pode não ser fácil, e precisaremos ter bons resguardos. 

TIRADENTES 
Obrigado, Peixoto! Sua ajuda será de grande valia. E concordo com esta ideia de ter sua mina como nosso refúgio em caso de necessidade. 

Tiradentes olha para todos. 

TIRADENTES (muito sério)
E quem mais partilha dos medos do Silvério? Quero que fale agora, enquanto é tempo de desistir. Depois, não poderemos ter espaço para que o medo nos domine, pois, disso depende o sucesso dessa empreitada. Disso depende nossa liberdade. 

Todos comemoram sem muitos gritos as palavras de Tiradentes, sorrindo e aplaudindo-o. Silvério permanece quieto e sério. TOMÁS (estatura média, 45 anos, de traços europeus, cabelos longos e muito bem vestido) nota e pede a palavra. 

TOMÁS 
Acho que nosso amigo Silvério não está confortável com nossa ação. (Para Silvério) Não será melhor você ficar de fora, meu nobre? 

SILVÉRIO 
Não. Quero participar. Também desejo a liberdade frente aos desmandos de Lisboa. Vamos derrubar o Visconde de Barbacena para sermos líderes dos nossos destinos. 

TIRADENTES 
Belas palavras, Silvério. Conto contigo e com teus homens na casa da moeda logo ao primeiro raiar do sol. 

TOMÁS
Também quero acreditar em suas palavras, Silvério. É importante para todo o grupo acreditar nisso tudo que disseste agora. 

Silvério sorri, fazendo sinal de aprovação com a cabeça. BÁRBARA (branca, estatura média, 35 anos, vestida como uma rica) pede a palavra. 

BÁRBARA 
Desejo ir com meu marido ao encontro do Governador. 

TOMÁS
De maneira alguma, Bárbara. Tens que ficar cuidando da Ifigênia. Você é apenas uma dona de casa, sem envolvimento algum com o movimento. Prefiro que fique fora dessa ação. 

BÁRBARA 
Mas desejo estas junto. Por nós. Não quero te deixar sozinho. E não sou nenhuma dondoca que não sabe brigar. Posso ser útil. 

TIRADENTES
Mesmo assim, acho prudente o pensamento do Tomás, Bárbara. Esta não é uma ação para uma mulher. Ademais, você precisa liderar as nossas mulheres e resguardar nossos mantimentos, pois a ação poderá se demorar, e vamos precisar disso. 

BÁRBARA 
Por favor! Eu posso ser mais útil que isso. 

TIRADENTES 
Acompanhe o Padre Rolim pelas ruas, então. Assim você não se arrisca demais, e pode participar ativamente. Acredito que nenhum soldado vá levantar armas contra a igreja e uma mulher. Pelo menos não os espero tão acirrados assim, já que os pegaremos de surpresa. 

Bárbara concorda com a cabeça. 

TIRADENTES
Perfeito! Bom, senhores, acho que estamos todos certos de nossas tarefas amanhã. Vamos descansar e nos preparar. 

Todos concordam, se despedem e vão saindo. 

Corta para: 
RUA DA CASA DE TIRADENTES / EXTERNA / NOITE 
(Ambientação, a rua é de pedras, e a iluminação PE quase uma penumbra, visto que tudo é iluminado por lamparinas) 

Todos já deixaram a casa de Tiradentes, e a rua está deserta. Silvério vai saindo em seu cavalo e, numa esquina, pára e olha para a casa de Tiradentes. 

SILVÉRIO 
Louco! Não posso deixar que todos nós morramos por causa do seu ego, alferes. Não posso e não vou! E posso lucrar muito com isso ainda, além de vê-lo morto, Tiradentes, seu patife. Vamos ver quem vai rir por último nessa história. 

Silvério sorri e sai a galope dali.