Covinhas

Em pé, bem na minha frente. Eu poderia tremer, mas naquela noite, eu conseguia me controlar. Não sei como, mas conseguia. Uma mecha do cabelo loiro escuro de vez em quando atrapalhava, impossibilitando que eu admirasse aqueles olhos cor de mel. O sorriso era o mesmo, e as covinhas continuavam lá. Eu era apenas apaixonada por elas. Fazia questão de lhe provocar um sorriso só para vê-las, e naquela noite, foi o que mais fiz.
Estendeu o braço com um copo transparente, contendo um líquido amarelo e gelo, muito gelo.
Óbvio que eu poderia sorrir e negar, no fundo, era o que eu devia fazer... Mas, diante do que ele disse, era quase impossível: - Pode beber, está bem fraco... – E sorriu. Não qualquer sorriso, caro leitor!
Era apenas o sorriso que eu vi todas as manhãs durante quatro anos. O sorriso que vinha junto com um longo “Bom dia Amor” e um abraço apertado! O sorriso que eu Amava, só que não sabia... Até perdê-lo. E bom, como nós só damos devido valor quando nos vemos longe de alguém, assim aconteceu comigo.
Depois de muito tempo, lá estava eu, diante dele, rendida por aquela espécie de anjo que eu teimava em dizer que queria apenas como amigo.
Levantei o braço, segurei o copo e dei um leve gole. Big Apple e Red Bull.
Bebericava de vez em outra, e em uma delas, enquanto analisava como os gelos demoravam a derreter, senti um olhar.
Levei novamente o copo em direção da minha boca e levantei lentamente meus olhos. Ele estava me olhando.
Não era qualquer olhar, era um que poderia me despir se possível fosse.
Sorria de lado, daquele jeito que me dá arrepios só de lembrar! Mãos no bolso, fazia pose, esnobava, sabia que podia fazer isso, e com todas. Exceto comigo!
Sentava do meu lado, fazia perguntas indiscretas que eu respondia fazendo jus a indiscrição. Colocava o rosto próximo demais do meu, e eu não afastava.
- Ta cedo, não vai embora agora, por favor! – Pedi. Implorei. SUPLIQUEI!

Segurou a ponta dos meus dedos e disse: 
- Tenho outra festa pra ir, não posso furar... – E é claro, sorriu. 

Acho que ele sabia o efeito que seu sorriso tinha sob mim, por isso, a cada olhar em minha direção, curvava seus lábios para cima.
Se aproximou lentamente do meu rosto e beijou firmemente uma de minhas maçãs.
Caminhou em direção da garagem e eu baixei minha cabeça enquanto pensava: “será que ele vai olhar para trás?”.
Que pensamento bobo esse meu! Ele estava indo para outra festa, e com certeza, milhares de garotas estariam lá, esperando por ele... Eu era apenas mais uma! E uma BEM normal! E essa coisa de “olhar pra trás”? Eu sonhava demais...
Minha amiga cutucou minha perna, e assim, fez com que eu saísse do meu transe de pensamentos e levantasse meus olhos. Lá estava ele, dando um último olhar, um último sorriso. Fazendo eu me apaixonar mais uma vez por suas covinhas.

Andresa Alvez