Pobre podre viúva

Esta era a terceira vez que Valéria enterrava um marido.
Ulisses, Humberto, e agora Milton. Mas, relembremos o começo de toda a história. Contava trinta e um anos quando conheceu Ulisses. Namoraram, noivaram e dentro de alguns meses já estavam casados. Depois do clássico mar de rosas que levou menos de um ano, Ulisses passou a mostrar suas reais faces. Trabalhava pela manhã e tarde, e revezava suas noites e fins de semana entre os bares e a sala de casa – onde também bebia. As noites acabavam quase todas da mesma forma: móveis quebrados, gritos, sujeira por toda parte, e claro, alguns hematomas em Valéria. Ao fim de dois anos, Ulisses voltava de uma de suas noitadas, quando seu carro colidiu com uma carreta, reduzindo ele ao mesmo que os estilhaços dos vidros. 
Mesmo que no fundo houvesse agora um alívio para aquela mulher que tanto amargurou, tratava-se de seu primeiro Amor. Do homem que um dia á ela dedicou palavras e tempo e carícias. Vestiu seu mais amargo preto, e enterrou então o amado desgraçado, que era o único culpado por agora, fazer rolar no rosto de Valéria lágrimas tão amargas quanto às vodkas que lhe embebedaram por muito.
Voltou á casa da mãe e da irmã mais nova. Salete, a caçula, estava crescendo e florescendo para a vida. Passou a aparecer com um namorado em casa; Eram ainda duas criaturas muito jovens. Não contavam mais que quinze anos. Por este motivo, era Humberto, o pai de Leonardo que o levava á casa de Salete. Vez ou outra entrou para tomar um café com dona Vera, e com Valéria. Bom, deixemos de ensaios. Apaixonaram-se, e Valéria enxergou ali, a possibilidade de recomeçar. Sob a bênção apreensiva de sua mãe, foi morar com Humberto. Sentiu-se cheia de uma alegria indescritível ao ver que podia sim, ser feliz de novo. Ele, um homem reservado e tímido, dedicou-se á ela com sinceridade. Planejaram aumentar a casa e ter um filho.
Naquela quarta-feira chuvosa, por uma ligação, disse á Humberto que se atrasaria, em função do grande movimento no salão –onde trabalhara desde muito moça- e ainda teria de fechar o caixa. Assim o fez. Ao aproximar-se o fim da noite, mais ou menos onze horas, passou no restaurante e comprou algo para jantar. Chegou em casa, foi aos fundos, pegou uma toalha, secou os cabelos, tirou os sapatos, e entrou. Na sala, Humberto, adormecido, com as pernas envoltas por um lençol, e o pescoço envolto pelos braços de uma outra mulher. Dormiam de forma tão serena que, pareciam eles os amantes que protagonizam a história de Humberto. Valéria permaneceu parada, com os batimentos mais acelerados que os de um rato. Está aí uma bela comparação, pois era bem desta forma que se sentia Valéria agora. Insignificante como um rato, diante da coragem de Humberto. Quem primeiro acordou, foi a vadia, ao som do choro desesperado de Valéria. Sacudiu os braços de Humberto, e já ia catando suas roupas. Resume-se que, nossa guerreira apenas depositou a aliança de ouro sobre á mesa de centro, e bateu às faces de Humberto a porta, que nunca mais abriria. Sua mãe foi a responsável por pegar seus pertences e dar um bom tapa na cara do sujeito.
De volta á casa da mãe, os anos agora passaram a voar. O sofrimento e as mágoas corroíam suas vísceras todos os dias, era inevitável. Quatro ou cinco anos depois de sair da casa em que morava com Humberto, recebeu a notícia de que falecera vítima de um câncer. Nem mesmo se maquiou. Vestiu seu preto, pesado e insolúvel, exatamente como o choro da viúva, e partiu ao encontro do jazigo, onde enterraria mais uma vez o Amor.
Encontramos então um intervalo de quase cinco anos. É verdade que Valéria conhecera outros homens, mas não teve com eles nada sério. Nada que pudéssemos chamar de relacionamento. Isto, até conhecer Milton. O primeiro passo foi Valéria contar absolutamente tudo que lhe houvera acontecido até então, ao passo que Milton, por sua vez, disse que faria tudo diferente. Não iriam morar juntos, prometeu que iria devagar, e que iria lhe provar que poderia ser diferente. Tudo e todos a sua volta insistiam que não era coerente aventurar-se mais uma vez. Apenas Vera, sua estimada mãe, lhe dedicou esperanças e preces, torcendo para que desta vez fosse feliz, aquela pobre criatura á quem chamava filha.
Começava então o processo de quebrantamento de um coração petrificado. Algo que, não foi difícil. Valéria era criatura doce, e que se visto valer á pena, Amava com toda sua alma.
Ele lhe foi muito bom. Dizia que a amava todo o santo dia, cobria-lhe de presentes carinhosos e flores. Nem mesmo a rotina de encontrar-se com tanta freqüência os fez esfriar. Dois anos. Dois anos de namoro, e absolutamente nada de ruim lhes havia acontecido. Agora todo receio havia ido embora, e Valéria enchia os olhos de lágrimas ao agradecer aos céus por aquele homem. Em um dezembro, Milton pediu sua mão em casamento. Ela, claro, aceitou. Não queriam festas, nem comidas, nem nada do gênero. Apenas uma cerimônia singela e o que lhes era de mais importância: casar-se nos corpos, corações, e papéis oficiais.
Era o dia do casamento, e ela pensava á todo instante como ele lhe havia sido sincero, e transparente. Dois anos depois e eles nem se quer moravam juntos. Agora sim, sentia-se preparada para entregar-se como nunca antes houvera feito, e Amar mais do que tudo, e todos. Levada por Marcos, seu grande amigo, chegou á casa de Milton. Farta de preto, usava um vestido vermelho, que realçava sua pele bronzeada e bem cuidada. Encontrou Milton no quarto, sentado ao pé da cama.
- Meu Amor, vamos? Já está na hora. E então, gostou? Estou bonita?
- Está linda, Valéria.
- Está tudo bem, querido?

Depois de um silêncio de enlouquecer, disse:
- Na verdade, não. Eu Te Amo. Te Amo demais, e quero estar sempre contigo. Tudo entre nós está tão bem que, tenho medo que se casarmos tudo se acabe em brigas e desgaste. Acho que mesmo com tanto tempo, ainda sim, nos precipitamos. Melhor deixarmos como está. Eu preciso de verdade de um tempo para organizar meus pensamentos. Me desculpe, meu Amor.

Houve de novo silêncio. Valéria o quebrou:
- Está bem.

Foi a cozinha, e voltou com as mãos escondidas atrás do corpo. Com um sorriso, pediu que Milton a ajudasse a abrir o zíper do vestido. Ele levantou-se, e mesmo sem muito entender, se pôs de pé para fazer o que Valéria queria.
Valéria materializava, tornava externo, extravasava agora, os seus sentimentos exatamente como se sentia por dentro. Dilacerada. Fez de Milton, um pano de cortes muitos. Tudo que se podia ouvir eram gritos desesperados, dele e dela. Tudo o que se podia ver, ao final, eram os cantos brancos dos olhos de Valéria. Nem mesmo os dentes escapavam das manchas vermelhas de mágoa e ódio. Ligou para a polícia: “Matei o meu Amor”. Bateu o gancho.
Deitou-se ao lado do corpo furado de Milton, encolheu-se, e nem mesmo chorou. Apenas ficou quietinha, enquanto esperava a polícia, que demorou, e só chegou por ter sido chamada por Marcos, seu amigo que diante dos gritos, entrou para ver do que se tratava.
Talvez o erro fosse dela, de se entregar tão facilmente. Talvez não. Talvez fosse uma desgraçada, que veio ao mundo com uma sina terrível. Ou talvez, a culpa fosse dos homens que lhe prometeram tanto e apenas decepção lhe deram. Isto cabe á cada um fazer seu julgamento. Ou não. Talvez não nos caiba.
Matou o seu o Amor. E para que não se deixasse trair por si mesma, permitindo-se ter qualquer sombra de esperança, trancou-se atrás de grades. Preferiu assim.
Fardo pesado e insolúvel. Exatamente como no choro da viúva.
Pesado como o seu sofrimento de uma vida toda.
Insolúvel, exatamente como seu líquido lacrimal.
Podre.
Pobre Víuva.


Claudio Rizzih.