Mania de codinome

O ser humano é mesmo cheio de manias. Temos nosso próprio jeito de fazer tudo, mesmo aquelas coisas mais triviais somos capazes de “reinventar” ao nosso modo. É natural. Temos prazer em fazer novas até mesmo aquilo que já está mais que sedimentado na cultura e nos hábitos cotidianos. O negócio não é fazer pelo simples fazer, mas encontrar um novo modo de realizar determinada tarefa. Daí surgem manias, pois ficamos encantados com nosso modo de executar alguma coisa, que passamos a enxergar ser aquele o modo mais certo do mundo de fazer. 
Toninho tinha a mania de apelidar seus amigos. Observador como só ele, achava legal encontrar um modo próprio de chamar alguém, um amigo, um parente. Ninguém escapava dos apelidos dele. Eram coisas inocentes, nada depreciativas. Talvez por isso ele fosse o colocador de apelidos oficial da vizinhança, porque as pessoas acabavam gostando do que ele criava. A meninada ficava ouriçada quando chegava naquela rua um amiguinho novo, esperando pelo olhar do Toninho, e sua ágil mente, que logo de cara inventava um apelido maneiro.
O tempo passou, e os apelidos que Toninho dava às pessoas passaram a ser cada vez mais elaborados. Agora ele dava às pessoas um codinome, sob o qual ele escondia as identidades de amigos, rápidos affairs, e grandes amores também. Os codinomes agora diziam muito mais que um reflexo de seus donos. Falavam do que o autor deles sentia, muito além do que era visível aos olhos de todo mundo. Toninho aprendeu a falar com a alma. E isso fazia toda diferença. E também não era todo mundo que poderia receber esses apelidos. Eram, agora, reservados aos que ele considerava melhores. 
Mas chegou um dia em que Toninho conheceu um amigo para o qual ele simplesmente não viu um codinome que se encaixasse. Era um jovem como ele, que tinha sonhos parecidos com os dele, e que tinha um jeito particular de enxergar a vida também. Conhecer pessoas é algo que fazemos todos os dias em nossas vidas. Algumas pessoas surgem por uma situação determinada, e as boas amizades nascem por gostos similares, e conversas agradáveis. Mas algumas pessoas surgem em nossas vidas de modo que não se sabe explicar. E são amizades extremamente fortes e sólidas as que nascem dessa imprevisibilidade toda. 
Então, Toninho ficou angustiado. Será que seu talento para apelidar as pessoas havia acabado? Por algum tempo, essa dúvida ficou rondando os pensamentos dele. E foi numa noite, num sonho, que Toninho entendeu porque não encontrava um codinome para aquele amigo que se tornou tão importante em sua vida. É que quando encontramos pessoas assim, que a simples amizade já nos é suficiente, sem nenhuma exigência mais, é que conseguimos dar o real valor ao maior e mais honroso apelido que alguém pode conferir a uma pessoa que quer bem: Amigo!