Dois estranhos! Apaixonados?

Como dois estranhos, 
Cada um na sua estrada, 
Nos deparamos, numa esquina, num lugar comum. 
E aí? quais são seus planos? 
Eu até que tenho vários. 
Se me acompanhar, no caminho eu posso te contar. 
E mesmo assim, queria te perguntar, 
Se você tem ai contigo alguma coisa pra me dar, 
Se tem espaço de sobra no seu coração. 
Quer levar minha bagagem ou não? 

Quantas histórias de amor começam assim? Muitas? Poucas? Sinceramente, ninguém sabe ao certo. Há quem diga que amor à primeira vista é uma lenda, tal como todas as lendas que povoam o imaginário popular. Mas existe. Eu não sei se na mesma intensidade para todos que experimentaram isso. Mas que existe, ah, isso é verdade. São as histórias mais incríveis, pois acontecem do nada, e no olhar os dois envolvidos já tem a certeza de que se conhecem há muito tempo. Eu ousaria dizer que talvez sejam encontros de almas gêmeas.
No mundo de hoje, não é nada fácil dizer a alguém, assim, de cara, que pode nos acompanhar, e no caminho lhes contaremos dos nossos planos. Ora, não se faz isso mais no mundo de hoje, nem com amigos. Talvez só os que detém a honra de serem os melhores amigos. Mas isso também já está mais do que deturpado. A verdade é que não confiamos nem na nossa sombra mais, quem dirá em alguém desconhecido. Parece loucura, né! 
Mas aí que tá o legal. É nesse contexto que entra o ingrediente explosivo. Se erra na dose, pode ficar amargo ou meloso demais. Falo do amor. Sim, para essas pessoas que nunca se viram, e, de repente, se encontram e se gostam, só mesmo esse encantamento que o amor produz pode justificar a tácita confiança. Afinal, amores à primeira vista são arrebatadores, cheios de querências e quereres. Sim! O amor à primeira vista é como um furacão de confiança que domina nossa alma. Ficamos sem ação, mesmo querendo agir. 

E pelo visto, vou te inserir na minha paisagem
E você vai me ensinar as suas verdades
E se pensar, a gente já queria tudo isso desde o inicio.
De dia, vou me mostrar de longe.
De noite, você verá de perto.
O certo e o incerto, a gente vai saber.
E mesmo assim,
Queria te contar que eu talvez tenha aqui comigo,
Eu tenho aqui comigo alguma coisa pra te dar.
Tem espaço de sobra no meu coração.
Eu vou levar sua bagagem e o que mais estiver à mão.


E então, tudo o que mais queremos na vida é estar com essa pessoa. E não medimos esforços. Afinal, amores advindos do primeiro olhar são fugazes, e tanto sabemos disso que nós mesmos temos medo dele se perder. Pode acabar amanhã, ou na próxima hora. Então, é preciso atacar naquele momento, pra poder colocar depois o tempo para trabalhar pela relação dos pombinhos. 
Por isso, nestes momentos, é preciso mesmo dizer que se vai levar a bagagem do outro, e também tudo mais que estiver à mão. O amor daquele momento só será perpetuado se for acalentado com tempo. Senão, se vai de maneira tão fugaz quanto veio. E não sobra mais nenhum rastro do avassalador amor que tomou os dois corações logo ao primeiro olhar. 
Se souberem manter viva essa chama, os dois estranhos poderão experimentar intimamente as alegrias de um amor que surgiu no encontro de almas que os olhos nos permitem. Se não, serão apenas dois estranhos, como tantos outros que vivem dia após dia, se batendo por esse mundão afora. 

Leonardo Távora 

(“Dois”, música de Tiê e Thiago Pethit)