Pois as areias não falam

Sentado nas areias daquela praia calma, serena, ele ficou olhando para o mar. Não lhe importava mais nada. Suas mãos acariciavam as areias enquanto ele observava o horizonte lá, ao longe, sem se importar com nada do que acontecia à sua volta. Crianças chutavam uma bola sem rumo perto dele. Se essa bola o acertasse, talvez nem notasse, tamanho era o nível de concentração daqueles olhos castanhos na longínqua linha do horizonte. Não restava mais nada. Ele estava sem chão. Sem vontade sequer de levantar-se dali. Ele só queria ver o mar. 
Instantes atrás, um pedaço de si foi arrancado, tomado de si. É como se tivessem transpassado-lhe uma espada. Só restava a ferida, que ardia, doía, inflamava. Era uma dor insuportável, e que ele não podia nem sequer dizer a alguém, pois, naquele momento, não havia amigos por perto para ampará-lo. Ela só ele, a areia e o mar. Nada mais. Ah sim, e a dor que lhe corroía por dentro também. Era como sangrar um suíno até a morte, naquelas antiquadas maneiras de matar que se usava antigamente. No caso dele, nem matadores estavam por perto.
Uma lágrima rolou de seus olhos. Uma só! Ele não queria chorar, pois aquela era uma derrota anunciada. Na verdade não havia nada que ele pudesse fazer. Quando as pessoas tomam decisões, por mais que queiram pensar diferente em algum momento, seguem-na até as ultimas instâncias. Com ele era assim. Porque não seria com ela, que era muito resoluta quando se decidia. Mas ele, sonhador, ainda tinha uma pequena - ínfima mesmo – esperança de que ela pudesse recuar do que tinha resolvido. Quanto engano. Ah! Elas sabem ser duras quando querem. 
Num rompante, ele começou a cavar um buraco. Nesse momento a noite já estava chegando, e a luz naquela praia vinha de brandos holofotes. Com o buraco aberto na areia, ele sentou-se dentro dele e começou a chorar. Sim, naquele momento ele estava colocando pra fora tudo, toda dor que sentia em seu peito. Colocava toda mágoa para fora. Ao longe, apenas uns surfistas noturnos se arriscavam nas águas do mar. Não podiam vê-lo. Então, ele bem podia jogar fora tudo que estava entalado. Eram sentimentos puros, bonitos, que um dia ele sonhou dar a ela. Era amor. 
Depois de algum tempo limpando-se de tudo que ele armazenara em vão, fechou o buraco na areia. Lá dentro, junto às lágrimas, estava tudo o que ele tinha guardado de melhor para ela. Enterrados, longe dele, que foi longe, pensando que poderia entregar à sua amada o melhor de si. Não. Machucar-se mais, de maneira alguma. Era melhor que tudo aquilo estivesse enterrado naquela areia. 
Seu coração ainda gritava, pedindo-o para não fazer aquilo. Mas já era hora de se abrir para o mundo novamente. Não adiantava viver como um Casmurro rabugento. Ele foi embora, sem olhar para trás, deixando enterrado naquela praia tudo de melhor que um dia ele ousou dedicar à bela moça que tinha o brilho das estrelas na luz do seu olhar.

Leonardo Távora