Livro em cena: "A mão e a luva"

Amigos, chegamos a mais uma edição do “Livro em Cena”. Desta vez, escolhi um clássico da literatura brasileira, embora seja um dos romances menos famosos do grande Machado de Assis. Trata-se do belíssimo romance "A mão e a Luva". Como a idéia é reproduzir em um roteiro o máximo que for possível do que o autor original pensou ao escrever a referida cena, aqui vamos mergulhar no universo machadiano, na segunda metade do século XIX. Para tal, a linguagem precisa ser a utilizada pelo autor, até para que você, leitor, consiga mergulhar neste universo incrível que ele criou.
Nesta cena, Estevão, rapaz recém-formado, está para se encontrar com Guiomar, moça típica de fazenda, por quem ele se encanta como que à primeira vista. Enquanto pensava em sua nova paixão, ele a vê passar por onde estava, e, depois de observá-la à distância, resolve ir até ela e ali iniciam um bom diálogo. Arrume uma pipoca aí, e boa leitura!

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Cena: Pomar / Externa / Tarde

Guiomar está sentada ao pé de uma árvore, com um livrinho às mãos, lendo-o.
Estevão passeia pelo pomar sem olhar por onde anda, desapercebidamente.
Estevão está pensando em Guiomar.

(aparecem, em close up, com tons de pensamento, os detalhes da beleza de Guiomar)

Guiomar levanta e começa a passear pelo pomar.
Estevão a vê, e se esconde.
Ele fica observando-a, com olhar desejoso.
Ela passe perto da cerca onde ele está escondido, na encruzilhada da estradinha. Ele está escondido atrás de uma árvore próxima ao caminho da direita.
Ela toma o caminho da esquerda. Sem notá-lo ali.
Ela percorre o caminho, até encontrar um velho banco de madeira, limpando-o e sentando-se nele, e ali deu um suspiro saudoso.
Estevão a observa, com o olhar tenro.
Ela olha o caminho, levanta e continua no rumo que estava andando.
Estevão decide, então, aparecer para Guiomar

Estevão (com medo, sussurrando): Acho que vou contemplá-la de mais perto.

Guiomar se escora na cerca ao lado da estrada, perto de uma árvore. Olha para os lados, contemplando a paisagem ali perto, vai até a árvore e senta-se ao seu pé.
Guiomar abre o livro, para continuar sua leitura.
Estevão chega por trás da cerca, com medo de assustá-la.

Estevão: Guiomar!

Guiomar solta um grito de susto.
Estevão também assusta e pede desculpas.

Estevão: Desculpe-me. Foi uma centelha do passado que estava debaixo da cinza. Apagou-se de todo.

Guiomar olha séria e quieta para Estevão.
Estevão, envergonhado, olha para o chão.

Estevão: Me perdoe. Não queria assustá-la...

Guiomar lança um sorriso.

Guiomar: Está perdoado.

Guiomar vai até a cerca e estende a mão para Estevão, que lhe toca, com um olhar de grande felicidade e um sorriso agradecido no rosto.
Eles se olham por algum tempo.

Guiomar: Há dois anos não nos vemos, creio eu?
Estevão (murmurando): Há dois anos...
Guiomar: Já está formado, não? Lembro-me de ter lido seu nome...
Estevão: Estou formado. Sabe que era o desejo maior de minha tia...
Guiomar: Não a vejo há muito tempo, interrompeu Guiomar; eu saí do colégio, logo depois que o senhor seguiu para São Paulo. Saí a convite da baronesa, minha madrinha, que lá foi buscar-me um dia, alegando que eu já não tinha que aprender, e que me não convinha ensinar.
Estevão: Decerto... Minha tia é que não deixou, nem podia deixar de ensinar. Acabou no ofício.
Guiomar: Acabou?
Estevão: Morreu.
Guiomar: Ah!
Estevão: Morreu há cerca de um ano.
Guiomar: Era uma boa criatura...

Guiomar nota que Estevão está observando uma flor.

Guiomar: Está admirando esta flor?
Estevão (surpreso): Com efeito... É linda!
Guiomar: Há muita flor bonita aqui na chácara. A baronesa tem imenso gosto a estas coisas, e o nosso jardineiro é homem que sabe do seu ofício.

Os dois começam a conversar
Vão caminhando, e Estevão vai perdendo a timidez.
Aos poucos, eles já vão se falando com grande desenvoltura.
Quase chegando em casa, Guiomar resolve se despedir de Estevão.

Guiomar: O senhor fez-me perder muito tempo. Há talvez uma hora que estamos aqui a conversar. Era natural, depois de dois anos. Dois anos! Mas o que não era natural (mudando o tom) era atrever-me a falar com um estranho neste déshabillé tão pouco elegante...
Estevão: Pelo contrário. Este lugar é elegantíssimo.
Guiomar: O senhor tem sempre um cumprimento de reserva: vejo que não perdeu o tempo na academia. Vou-me embora. São horas da baronesa dar o seu passeio pela chácara.
Estevão: Será aquela senhora que está ali no alto da escada?
Guiomar: É ela mesma. Está a espera para que eu vá lhe dar o braço.

Guiomar estende a mão para Estevão.

Guiomar: Passe bem, senhor doutor. Estimei vê-lo.

Estevão tocou a mão de Guiomar, respeitosamente.
Guiomar se afastou, tomando o rumo da casa.
Estevão ficou observando enquanto ela caminhava, admirado.
Guiomar sobe as escadas e dá a mão para a baronesa.
As duas descem vagarosamente, e seguem o caminho para o outro lado da casa.
Estevão fica encostado na cerca, esperançoso que Elas passem por ali.
Mas as duas tomam outro rumo. Guiomar nem olha para o lado em que Estevão está.
Estevão fica decepcionado.

Estevão: Entro num drama ou saio de uma comédia?