Doce e veneno: Assim como os copos-de-leite

Um dia você me disse que sua planta preferida era o copo-de-leite. Fiquei intrigado e fui pesquisar sobre ela, para entender o porquê do seu fascínio. Essa é uma planta linda, incrível, intrigante, e tóxica! É originária da África do Sul, que domina grandes áreas nos leitos dos rios e também nos lagos. É comum em lugares muito úmidos e usados sistematicamente para ornamentação de jardins em áreas de zona temperada. Uma planta que encanta tanto quanto impõe medo. Que nos faz a admirar, enquanto deveríamos sentir medo dela. Que é capaz de nos levar da alegria à dor tão rápido quanto uma viagem a bordo daqueles aviões supersônicos.
É, portanto, uma planta de dualidades. Ao mesmo tempo em que encanta, é capaz de provocar grandes dores. Sua beleza incontestável esconde o perigo, camuflando-o pela sedução de sua flor, que inebria os olhos com a incrível combinação de suas cores... Verde, branco, amarelo... E atraem as mãos com a maciez de eu cálice, e a suavidade com a qual os copos-de-leite se encaixam no ambiente. Esta é a perfeita imagem do “decifra-me ou te devoro”. Quem não se sentiria instigado a descobrir os mistérios ocultos na beleza aparente de tão incrível flor?
E descobri que assim é você. Bela, encantadora, incomum. Todos que a vêem e se contentam com o físico, ficam realmente abobados, loucos de desejo de te ter. Mas apenas quando essas pessoas te conhecem, através do convívio, já que não procuraram observar além do mel dos teus olhos, é que percebem que a beleza é um artifício que você adora usar para mascarar o perigo que representa. É por isso que grandes homens se perdem pela ridícula necessidade de aparecerem ladeados por belas mulheres, tão lindas quanto traiçoeiras.
Claro que não são todas assim. Óbvio que existem as mulheres que mais se parecem com rosas, que são bonitas, e que nos fazem bem. Ah, como eu queria que você fosse uma dessas. Como eu fui burro, por acreditar nas doces palavras que você não cansava de me dizer, quando o que queria era usurpar meus dias de felicidade, inundando-me em um mar negro, triste, acinzentado. Me tirou a alegria, com suas promessas de amor infinito. Me jogou num abismo quando, sem a menor cerimônia, me disse adeus.
Eu, que me deixei encantar por um lindo copo-de-leite, que, ao invés de me dar muitas alegrias, senti a dor de uma tristeza. Mas, incrivelmente, isso passou, pois tudo na vida passa. Acredito que a vida seja feita de momentos. Ainda que indesejáveis, são momentos, e momentos são sucedidos por outros momentos, e fazem um mundo acinzentado virar um lugar maravilhoso, cheio de coisas apreciáveis, ainda que isso também não passe de um momento. Os momentos podem ser como copos-de-leite, assim como podem ser como delicadas orquídeas, ou como as encantadoras rosas, que transformam nossos momentos em festas que desejamos ter por toda nossa existência.
Várias pessoas vem e vão durante nossa vida. As que ficam, não o fazem por meio da mentira e da falsidade, mas unicamente por causa da verdade, que constrói sólidas amizades, que estão e estarão conosco durante muitos e muitos momentos. A quem nos faz mal, ainda que respaldado por uma beleza que nos encanta à primeira vista, digo que tenho pena, pois jamais terão uma vida plenamente feliz e realizada, cheia de amigos de verdade, e, quem sabe, também de amores.
Hoje eu aprendi que não devo procurar nos copos-de-leite a minha felicidade. Ela está dentro de mim, e não na beleza que por ventura meus olhos encontrem pelo caminho.
Tenha verdade. Sinta a verdade. Seja verdade!!!