Sobre Nascimentos

Seus olhos castanhos fitavam a pista.
Pela primeira vez em dias, a única coisa que se ouvia no carro era o silêncio.
- Eu estou enlouquecendo! - Exclamou aflito, assustado, como se a direção não fosse algo importante.
Ele me derramava toda sua história e eu prestava atenção, calma e tranquila.
Ele não estava louco, e nem iria enlouquecer, ele estava só... Nascendo. E teria que aprender a lidar com isso.Já eu, vivo tem anos dentro dessa casca psicótica. Seria estranho se um dia, tudo se tornasse normal... Se eu não acordasse mais de madrugada sedenta para esboçar palavras, ou fugir de uma festa para um lugar tranquilo apenas para confessar ao papel, ou, então, após uma briga ou uma dor, vomitar meus garranchos em um bloco de notas qualquer.
Mexia as mãos, fazia desenhos ao vento; falava cada vez mais rápido e descompassado.
Eu era a única que iria entender. Eu era a única que conseguia isso.
Estacionou o carro no lugar para onde meu dedo magricela apontava.
Ele não estava enlouquecendo, ele estava nascendo. E tudo que ele precisava, era dar os primeiros passos, porque as primeiras palavras já lhe tinham sido concebidas.

Andresa Alvez