Filetes

Pra lá de tonta, era assim que eu me encontrava. Caminhei sentindo a sala girar até chegar na porta que dava para a garagem, apoiei meu tronco na soleira para fechar minha jaqueta até o pescoço. Na cidade do mar, o vento é sempre mais frio.
Andei segurando a parede até ficar em baixo da janela, escorreguei até sentir que alcancei o chão, e ali fiquei.
A cachorra andava por toda a área, algumas pessoas tocavam violão na sala, um de nossos amigos foi dormir, e eu fiquei ali.
Conforme a noite passava, o frio se intensificava, mas eu não queria sair dali. Ou melhor, eu nem conseguiria fazer isso.
Eu estava calma, tranquila, completamente lúcida, exceto pelas três pessoas que eu via caminhando através da janela da casa do outro lado da rua.
- Não tem ninguém lá. - Meu amigo disse como se meu olhar perguntasse sem que eu precisasse abrir a boca.
Não senti medo, e continuei ali. A única coisa que eu sentia, era todos os músculos do meu corpo se relaxando, como se, todos se espreguiçassem ao mesmo tempo.
O Amor daquele inverno sentou-se ao meu lado, puxando uma das minhas mãos, seus olhos pareciam pequenos filetes e ele sorria.
- Você está bem? - Perguntou com a voz devagar.
- Não poderia estar melhor... - Respondi sorrindo, enquanto encarava as telhas da garagem, todas alinhadas, uma ao lado da outra.
Um terceiro sentou-se diante de mim, parei de encarar o teto e segurei o sorriso até meus olhos encontrarem os dele.
- Eu já vi muitas meninas pirarem - Ele começou - Principalmente aqui em casa. Meninas da sua idade, mais novas que você, mais velhas, mulheres. Mas eu nunca vi uma ficar com olhos tão lindos quanto os seus, nunca! -
Deixei meu sorriso ficar maior, agora meus olhos também se tornaram filetes por culpa do sorriso largo.
Ri baixinho - Obrigada... Eu nunca vou me esquecer disso. - Agradeci, sentindo meu coração explodir.
Fui pra casa, segurando os braços dos meus amigos, minhas pernas trançavam, eu soltava gargalhadas dispersas. Sorria para a grama, para o asfalto, para as luzes, os carros.
- Eu queria não precisar dormir mais... - Disse enquanto bocejava.
Ao chegar em casa, cocei meus olhos, tirei o tênis e dormi.
Dormi sorrindo, o sono das plantas, dos olhos de filete, dos olhos injetados, dos olhos bonitos.

Andresa Alvez