Estilhaços

Ontem quebrei uma caneca. Não qualquer caneca. Quebrei a primeira da minha coleção. Já estava trincada na borda, é verdade, fruto de um dos muitos tombos que levou. Mas, ainda estava inteira e dela fazia bom uso. Pra tomar café não tinha igual...
Era preta, a caneca, tinha um desenho de um super-herói estampado de lado a lado. O desenho já estava desbotado, gasto pelo tempo. Mas, ainda era bonita, vistosa. Uma pena ter quebrado. Ficou lá, em centenas de pedaços pelo chão. E eu ali, em pé ao seu lado, contando cada estilhaço, pensando em como voltar no tempo ou, pelo menos, como colar os cacos. 
Lembrei-me de quando a comprei, num supermercado desses da vida. Eu não tinha canecas, até então. Foi só a primeira de muitas. Depois dela vieram outras, algumas até melhores. Mas, ela era especial.
Era de um tempo em que eu, inocente de tudo, idolatrava super-heróis. De um tempo em que eu, moço de tudo, acreditava num futuro melhor. De um tempo em que eu, tolo de tudo, ainda sonhava. E acreditava que canecas poderiam durar pra sempre, e que eu poderia cuidar para que ela nunca se quebrasse nas mãos de alguém. Ironia eu mesmo tê-la quebrado.
Enquanto recolhia os cacos pelo chão, pensei em quantas coisas minhas já quebrei. Nem contei os brinquedos. A caneca despedaçada mexeu tanto comigo que só pensei em coisas abstratas, metafísicas. Lembrei das amizades rompidas, dos amores partidos, das chances desperdiçadas, dos planos deixados de lado, dos sonhos estilhaçados.
Fiquei bravo comigo mesmo. E, cheio de remorso, juntei os cacos e joguei no lixo. Não daria para remendar, estava irrecuperável, não tinha volta. Fechei a tampa da lata de lixo e convenci a mim mesmo que certas coisas são frágeis, feitas pra quebrar. Como as canecas e a alma dos homens.

Celso Garcia