Uma declaração no espelho, uma maquiagem e um quase término

Poucas foram as vezes
Em que não estive bem,
Estando ao seu lado
Que, tenho a certeza, ser
O melhor lugar para
Se estar com alguém.

Guilherme escreveu meia dúzia de versinhos no espelho do quarto dela. Sabia que Aninha adorava seus carinhos. Vez por outra, resolvia fazer uma gracinha. Ele a esperou dentro do guarda roupa. Apesar de ter certeza do sucesso de sua rima, sempre endereçada ao coração da amada, foi debaixo de uma chuva de berros que saiu do esconderijo.
Por breves (para ela) e longuíssimos (para ele) dez minutos, ele “ouviu” assentado na cama uma chuva de reclamações a respeito de sua insensibilidade. Enquanto ela desferia dolorosos golpes contra seus ouvidos, ele revisava mentalmente os versos que lia no espelho em frente. Não entendia o motivo de, pela primeira vez, ter sido traído por seu talento com as palavras.
Escolhera um dia ruim para a surpresa. De certo. Aninha deveria estar na zona vermelha do calendário. Sabedor das suas alterações de humor mensais, Guilherme logo recorreu à arma mais efetiva nesses casos: continuou assentado, imóvel, fingindo-se de morto. Seus olhos repousados sobre o chão, mantendo a cabeça baixa em sinal de respeito ao produto de Deus que fatalmente arrancaria sua cabeça ao primeiro movimento.
Ao final do discurso (do qual, claro, ele não conseguia se lembrar de uma frase completa), o romântico rapaz a abraçou e cometeu um erro grave. Teve a audácia de perguntar se ela poderia explicar, de forma resumida, o motivo de toda aquela demonstração de carinho. De um pulo ela pôs-se de pé. E como se não tivesse levado suas cordas vocais ao limite há menos de trinta segundos, ou escutado seu pedido para ser breve, começou um discurso eufórico. A frase que mais se ouviu - e todos os vizinhos ouviram - dali para frente foi: “Você não presta atenção em nada do que eu falo”.
Em meio a várias frases desconexas, Guilherme distinguiu algumas palavras que fizeram algum sentido em sua cabeça já fatigada. Aninha disse qualquer coisa parecida com uma tal de “cor diva”, uma tal de MAC, que parecia ser muito importante, e “você não podia ter acabado com a minha vida assim”. Rapidamente, conexões tomaram sua mente. Tinha usado o batom caríssimo, da marca caríssima que ela com toda certeza amava mais que a sua própria vida.
O jovem se colocou de joelhos e aos prantos tirou a prova do crime do bolso. Um cotoco de batom e prometeu: “em meia hora eu vou até o shopping e trago um novo. Desculpa! Eu não quis te prejudicar, só queria fazer uma sur…”. Foi interrompido! A amada o levantou do chão e com um abraço forte o perdoou. Uma semana depois, ele veio a saber que havia usado o AVON - Vinho Matte ao invés do MAC - Diva.

Gustavo Dias