Preconceito

Não deveria dizer isso, ainda mais aqui. Ficará escrito para todos verem, uma prova do crime. As pessoas não me verão com bons olhos depois disso. Juro, já tentei parar, convencer-me de que é errado. Eu sei que é errado. E faço mesmo assim. Contradições humanas, certo?
Mas, preciso confessar: eu tenho um preconceito.
Peço desculpas, desde já. Acredite, eu sei que não deveria. Infelizmente, é mais forte que eu.
Meu preconceito é contra aquele tipinho de gente chamado (...). Quando vejo um (...) na rua, já vou logo pensando um monte de idiotices sobre tal pessoa. Julgo, é verdade, julgo mesmo. Sei lá, baseio-me em coisas que vi ou ouvi ou vivi. Bom, na verdade não me lembro de ter vivido algo que me fizesse ter este tipo de preconceito contra os (...), é uma coisa que vem de lá de trás, sabe?! Passado geração após geração, gravado a ferro e fogo no cérebro. “Nunca confie num (...), eles não prestam”. Se meu bisavô disse, se meu avô disse, se meu pai disse, é porque deve ter um fundo de verdade. Certo?
No fundo, acredito que todas as pessoas no mundo tem algum tipo de preconceito. Elas podem até controlar isso, mas, sei lá, deve estar em alguma parte primitiva do encéfalo. Aquela que nos aproxima dos animais irracionais. Tem gente que tem preconceito contra (.........), outros contra (....... ....), até contra (.. ..... ... ......... ...). O meu preconceito é contra (...), oras. Não sei se devo dizer contra ou com. Não tenho nada contra, é só preconceito mesmo. Acho que escondo bem, até hoje ninguém me chamou de preconceituoso. Aliás, esta é a sacada de mestre, fingir.
Funciona assim: você sente algo ruim por um tipo de pessoa, mas não demonstra. As pessoas podem até suspeitar do que se passa na sua cabeça, mas elas nunca saberão a verdade. Só você sabe. E precisa conviver com aquilo, com esse monstro que vive na sua cabeça. Ou então, colocar esse monstro pra fora. Mas, aí é contigo. Eu não recomendo. As pessoas odeiam monstros andando por aí. Revelar o seu eu mais profundo pros outros não dá muito certo. Agora, se você mentir, tudo bem. Eu não diria mentir, é uma palavra muito pesada. Certo? Fingir é melhor.
Por exemplo: você tem um preconceito. Mas, faz de conta que não tem. Eu faço de conta que acredito. E vice-versa. E assim, vivemos todos em paz. Uns vão dizer que é hipocrisia. Pode ser, mas...
As pessoas não querem viver com o preconceituoso. Mas, conseguem conviver com o hipócrita. Sem se dar conta de que, no fundo, estão convivendo com os dois. Certo?

Celso Garcia