O meu segredo

Algumas pessoas ficam realmente assustadas com o fato de eu gostar tanto de aniversários. Elas não entendem como eu posso apreciar o fato de ficar cada dia mais velha.
Vejo amigas minhas reclamando de pequenas rugas que aparecem no rosto (algumas delas são de tanto sorrir), ou se queixam por algo de diferente que surgiu no corpo devido o fato dos ponteiros do relógio não pararem de correr.
Então vou contar o meu segredo, e que certamente, deveria ser o segredo de muitos: Cada dia, pra mim, é uma dádiva.
Por ser portadora de Osteogênse Imperfeita, a "doença dos ossos de vidro" tudo demorou muito para acontecer na minha vida, tudo foi devagar, minhas "saídas" quase sempre eram com meus pais, nunca pude ir em festas sozinha, shoppings ou coisas desse tipo até completar mais ou menos 16 anos. 
Eu sempre tive alguém do lado para segurar a minha mão... Mas, antes disso, muito antes, eu ficava só em casa, na cama. Eu e meus livros, eu e minhas revistas, eu e meus desenhos, eu e Deus. Era isso que eu tinha.
E ali, no meu mundo, eu queria que o tempo passasse... Porque algo dentro de mim dizia "Isso vai mudar". Uma certeza gritava forte em meu peito que um dia, eu andaria com as minhas amigas no shopping, que um dia eu iria trabalhar, iria sair, iria a festas. Um dia, eu teria uma vida (quase) normal.
Com o passar dos anos, tudo foi acontecendo, e a certeza que gritava no meu peito se firmava mais a cada dia... 
Os dias eram pequenos presentes, a cada passo que eu dava entendia que tudo precisava acontecer, que os ponteiros do relógio precisavam girar para que cada coisa pudesse ser real.
A cada ano de vida, algo novo acontece em mim. A cada exame, meu ortopedista conta uma novidade que me faz sorrir, seja mostrando um raio x e apontando as marcas do crescimento do meu osso ou dizendo que eu sou uma vitoriosa por ainda carregar um sorriso mesmo com tudo que eu passei. 
Os pequenos acontecimentos, os mais simples, sempre tem um valor grande, e é esse o segredo.
Ás vezes nós esperamos que coisas incríveis aconteçam, que algo derrube a nossa porta e mude toda a nossa vida, mas as mudanças acontecem gradativamente, e são diárias... É mais ou menos como os meus ossos, que eram fracos e precisaram de quase seis anos de tratamento para ficarem fortes.
Eu precisei de dois anos para aprender a andar, eu precisei de muitas conversas para entender que eu não poderia correr e nem usar salto alto. Eu precisei de uma vida para perceber que eu sou perfeita assim, desse jeito, e que não existe ninguém no mundo igual a mim.
Uma lagarta precisa de tempo para se tornar uma borboleta. Ela precisa esperar pacientemente para poder voar, para ser livre. 
Não espere a sua vida parar para entender que o mundo não pára. Não deixe passar.

Andresa Alvez