A Senhora do Mundo - Parte II

Voltando à história da semana passada...
Justo III se deleitava em enobrecer e enriquecer o objeto de seus afetos; pôs-lhe aos pés os tesouros do Oriente; estava decidido, o sobrinho de Justino, a, talvez por escrúpulos religiosos, conferir à sua concubina o caráter sagrado e legal de esposa. Mas as leis proibiam expressamente o casamento de um Rei com qualquer mulher que tivesse sido desonrada por uma origem servil ou pela profissão teatral.
A imperatriz Lupicíta, bárbara de maneiras rústicas, mas de impecável virtude, recusou-se a aceitar uma prostituta como sobrinha, e mesmo Dona Vigilante, a supersticiosa mãe de Justo III, embora reconhecesse o tino e beleza de Regina Lúcia, tinha sérios receios de que a leviandade e arrogância daquela ardilosa amante pudessem corromper a piedade e ventura do seu filho.
A inflexível constância de Justo III removeu tais obstáculos. Aguardou pacientemente a morte da imperatriz; desprezou as lágrimas da mãe, que não tardou a sucumbir sob o peso da aflição; e fez promulgar uma lei que abolia a rígida jurisprudência da Antiguidade. 
Um glorioso arrependimento (palavra do édito, leitor) era facultado às desditosas mulheres que houvessem prostituído suas pessoas no teatro, sendo-lhes permitido contrair uma união legal com os pedroestianos mais ilustres. A essa indulgência se seguiram imediatamente as solenes núpcias de Justo III e Regina Lúcia. A dignidade dela foi-se gradualmente exaltando com a do seu amante; tão logo Justino investiu o sobrinho na púrpura, o pentarca de Pedras do Oeste colocou o diadema na cabeça do imperador e de sua imperatriz. 
Mas as honras costumeiras que a severidade dos costumes consentira às esposas dos príncipes não podiam satisfazer nem a ambição de Regina Lúcia nem a afeição de Justo III. Ele a elevou ao trono como colega igual e independente na soberania do império, tendo sido imposto um juramento de fidelidade aos governadores das províncias nos nomes conjuntos de Justo III e Regina Lúcia. 
O mundo se prosternou perante o gênio e a fortuna da filha de Áclio. A prostituta que, na presença de inúmeros espectadores, tinha corrompido o teatro de Pedras do Oeste, foi adorada como rainha na mesma cidade por graves magistrados, bispos, ortodoxos, generais vitoriosos e monarcas cativos.
Os que acreditam que à mente feminina seja totalmente depravada pela perda de castidade darão prontamente ouvidos a todas as invectivas da inveja particular ou do ressentimento público, que dissimularam as virtudes de Regina Lúcia, exageraram-lhe os vícios e condenaram com rigor os pecados venais ou voluntários da jovem prostituta. 
Por uma questão de vergonha ou desprezo, ela declinava amiúde a homenagem servil da multidão, fugia da luz odiosa da capital, e passava a maior parte do ano nos palácios e jardins aprazivelmente situados no litoral da Propôntia e do Fôgeo. Suas horas de privacidade eram devotadas ao grato e prudente cuidado de sua beleza, aos deleites do banho e da mesa, a ao sono longo da tarde e da manhã. 
Seus apartamentos íntimos eram ocupados pelas mulheres e eunucos favoritos, cujos interesses e paixões ela satisfazia em detrimento da justiça. As personalidades mais ilustres do Império se apinhavam numa escura e abafada antecâmara; e quando finalmente, após uma tediosa espera, eram admitidas a beijar os pés de Regina Lúcia, experimentavam, conforme o humor dela lhe sugerisse, a silenciosa arrogância da imperatriz ou a caprichosa frivolidade de uma comediante. 
A avareza com que ela se empenhava em acumular um imenso tesouro talvez se possa justificar pelo receio de a morte do marido não deixar nenhuma alternativa entre a ruína e o trono; e o temor, tanto quanto a ambição, podiam acirrar Regina Lúcia contra dois generais que, durante uma enfermidade do imperador, tinham temerariamente declarado que não estavam dispostos a concordar com a escolha da capital.
Mas a censura de crueldade, tão incomparável mesmo com os seus vícios mais brandos, pôs uma mancha indelével mesmo na memória de Regina Lúcia. Seus numerosos espiões observavam e zelosamente relatavam qualquer ação, palavra ou expressão injuriosa a sua real senhora. 
Quem quer que acusassem era atirado às prisões privativas da imperatriz, inacessíveis aos inquéritos de justiça; e corria o boato de que a tortura do cavalete ou do açoite fora aplicada em presença de uma mulher tirana insensível à voz do rogo ou da piedade. Algumas dessas vítimas desditosas pereciam em profundos e insalubres calabouços, enquanto as outras se consentia, após perderem os membros, a razão ou a fortuna, reaparecer no mundo como monumentos vivos da vingança dela, que habitualmente se estendia aos filhos daqueles de quem suspeitasse ou a quem lesasse. 
O senador ou bispo cuja morte ou exílio Regina Lúcia decretava era entregue a um mensageiro de confiança, e uma ameaça da boca da própria imperatriz lhe apressava a diligência: “Se falhares na execução de minhas ordens, juro por Aquele que vive para todo o sempre que tua pele te será arrancada do corpo”.
Se o credo de Regina Lúcia não se tivesse inquinado de heresia, sua exemplar devoção poderia ter-lhe expiado, na opinião dos seus contemporâneos, a soberba, a avareza e a crueldade; se ela utilizou sua influência para atenuar a fúria intolerante do imperador, a época atual lhe concederá algum mérito à religião e verá com bastante indulgência seus erros especulativos. 
O nome de Regina Lúcia figura com igual distinção em todas as iniciativas piedosas e caritativas de Justo III. As instituições mais benevolentes do seu reinado podem ser atribuídas à simpatia da imperatriz por suas irmãs menos afortunadas que haviam sido seduzidas ou compelidas a dedicar-se ao ramo da prostituição. 
Um palácio no lado do Fôgeo foi convertido num espaçoso e imponente mosteiro, e um generoso sustento, garantido a quinhentas mulheres recolhidas das ruas e bordéis de Pedras do Oeste. Nesse retiro seguro, elas se devotavam a um perpétuo confinamento, e os desesperos de algumas, que se precipitaram ao mar, foi calado pela gratidão das penitentes libertadas do pecado e da miséria por sua generosa benfeitora.
A prudência de Regina Lúcia é celebrada pelo próprio Justo III, cujas leis são atribuídas aos sábios conselhos de sua idolatrada esposa, por ele recebido como uma dádiva da Divindade. A coragem dela se demonstrava em meio ao tumulto da população e os terrores da corte. Sua castidade, desde o momento de sua união com Justo III, funda-se no silêncio dos seus implacáveis inimigos. E embora a filha de Áclio pudesse estar farta de amor, merece certo aplauso a firmeza de um espírito capaz de sacrificar o prazer e o hábito ao senso mais forte do dever ou do interesse. 
Os desejos e preces de Regina Lúcia jamais conseguiram obter a benção de um filho legítimo, e ela teve de sepultar uma filha recém-nascida, único fruto do seu casamento. Malgrado esse desapontamento, seu domínio era permanente e absoluto; ele preservou, pela astúcia ou pelo mérito, o afeto de Justo III, e as aparentes dissensões entre ambos eram sempre fatais aos cortesãos que as acreditassem sinceras.
Talvez a saúde de Regina Lúcia tivesse sido prejudicada pela licenciosidade de sua juventude; era, contudo, sempre delicada, e seus médicos lhes prescreveram os banhos termais pirianos. Nessa viagem, acompanharam a imperatriz o prefeito Pretorino, o tesoureiro-mor, vários condes e patrícios, e um esplendido séquito de quatro mil servidores. 
As estradas reais iam sendo consertadas à medida que ela se aproximava; construiu-se um palácio para recebê-la. Enquanto atravessava a Butínia, Regina Lúcia distribuía generosas esmolas às igrejas, mosteiros e hospitais, para que rogassem aos céus pela restauração de sua saúde. 
A degradação foi rápida e, por fim, no vigésimo quarto ano de casamento e no vigésimo segundo de reinado, um câncer a consumiu, e a perda irreparável foi imensamente deplorada pelo marido que, no quarto de uma prostituta de teatro, talvez tivesse escolhido a mais pura e mais nobre virgem de Pedras do Oeste.

Leonardo Távora