Paixão à primeira vista - A história de amor de um pardal e uma angorá

Certa vez um pequeno pardalzinho apaixonou-se por uma gata, pela qual passou voando, às pressas, antes de uma consulta com Dr. Tenório. Benjamin, o pardal, destemido como nenhum outro pássaro do Bosque Verde, acordava todos os dias pensando em fazer a diferença na sua vida e na daqueles que o cercavam. Há muito, vinha se queixando de uma queda acentuada de seus penachos que vinham lhe deixando calvo.
Naquela manhã primaveril, Benjamin voava apressado pelo bosque. Não podia perder a consulta com o mais renomado dermatologista nas redondezas que iria lhe devolver a confiança da vasta cabeleira. Ao passar pelo cruzamento das Amendoeiras com as Macieiras, o passarinho teve sua atenção chamada por uma gatinha preza na copa de uma árvore próxima. Sua encantadora beleza era admirável. Como brilhava seu pelo branco e reluzente. Seus olhos, nem claros, nem escuros, refletiam o sol de alguma forma que ele não sabia explicar. Apaixonou-se à primeira vista.
Se havia alguma coisa que era pública e notória no bosque, era que Benjamim sofria de complexo de inferioridade. Sentia-se intimidado pelo peito estufado dos sabiás, pensava que sua cor pastel era infinitamente inferior ao amarelo resplandescente dos bem-te-vis e, decididamente, ficava triste por semanas se alguém, por mais bem intencionado que fosse, comparasse o seu bater de asas à habilidade de voo de um beija-flor. Apesar de sempre encarar a vida e se apresentar de cara limpa aos desafios do mundo, frequentemente se abatia, fazendo um esforço para que ninguém reparasse, quando via nos outros as qualidades que não possuía.
Fato é que, por obra de um desvio de olhar durante o voo, o nosso pequeno amigo parou no topo daquela macieira antes da consulta. O motivo era simples: precisava, de alguma forma declarar sua mais recente paixão àquela bela espécime felina que estava em apuros. Pôs-se a cantar.
Alguns minutos mais tarde e duas ou três sinfonias entoadas, foi interrompido. Amélia (era o nome da angorá) queria saber o motivo pelo qual ele, insensível aos seus problemas, cantava sem antes mover uma asa para ajudá-la. Ao que ele explicou:
- Canto porque a vida é bela. Canto para alegrar os corações. A vida, minha amada, anda corrida por demais. E poucas vezes temos a oportunidade de nos dedicarmos ao que gostamos de fato de fazer. Faço o que gosto! Ontem gostei de comer bem, antes de ontem gostei de dormir bem. Hoje gosto de cantar e sem mais, nem menos, gosto de admirar, bem daqui onde estou, como uma gata como você pode desviar os meus "passos" matutinos e me fazer sentir prazer em me atrasar para todos os meus compromissos só pelo simples motivo de me parecer ser muito mais importante não despregar os olhos de você. A partir de hoje, se me quiseres, sou seu.

E assim, sem dar qualquer outra explicação, a partir de então, o pequeno pardal, com sua cor pastel e todos os seus demais defeitos, não mais desistiu de a cada dia reconquistar, com uma simples canção, o coração de sua amada gata angorá que fatalmente o amou sem se importar com sua calvice também avançou dia após dia.

Gustavo Dias