Um brinde à solidão

Cheguei atrasado, ela já estava no restaurante. Imagino eu que há tempos, havia três garrafas de cerveja já vazias sobre a mesa e uma quarta pela metade. Ela parecia estar tendo um dia difícil. Vesti uma expressão de condolência no rosto e sentei-me ao seu lado.
- Oi, – falei – desculpa o atraso.
- Chegou cedo. Pede um copo.
Obedeci. Assim como obedeço a tudo que ela me pede, só pra agradá-la. Desde que a conheci, anos atrás, tem sido assim. Já tentei mudar, mas esse músculo involuntário que bate no meu peito insiste. Sei que não daria certo, ela e eu, mas meu coração jura que estou enganado, que eu devia tentar.

- Bem que você disse que não ia dar certo – ela falou, depois de um gole.
- Como é? – indaguei aflito, já acreditando que lia pensamentos.
- O Marcelo e eu. Você disse que não ia dar certo. O cachorro me pediu um tempo e eu mandei ele à merda.
- Que chato, – menti – você tá bem?
Ela fez cara de que estava, que aquilo não era nada. Era assim toda vez que ela terminava um relacionamento. Fazia crer que não era nada. Aí entrava em uma espiral de culpa e arrependimento, da qual só saía se achando a pior mulher do mundo, pronta pra outro pé na bunda. Ela levantou o copo, propondo um brinde. Enchi meu copo, levantei-o e disse:
- Aos bons amigos!
- À eterna solidão! – falou ela, com amargor, e olhou pra baixo tentando disfarçar a tristeza.
Eu não achava justo alguém como ela ser condenada à solidão. Remoí este pensamento por um bom tempo, e confesso que não me lembro bem do que ela falava enquanto isso. Acho que alternava xingamentos e relatos sobre o relacionamento dela.
- É isso, o Marcelo não me merecia. – concluiu, já com a voz embriagada.
Que ele não a merecia eu já sabia, sempre que os via juntos, eu pensava isso. Pena ela ter ido tão longe pra chegar a essa conclusão. E quando eu ia oferecer palavras de conforto, ela encontrou uma maneira de mudar de assunto. Nessas horas, ela sempre soltava alguma pérola filosófica, antropológica ou sociológica. A daquela noite foi marxista:
- Coitado do garçom, trabalhando até essas horas pra enriquecer o patrão. O crápula deve estar em casa, dormindo... À exploração da mão de obra!
Então, ergueu o copo propondo um brinde a ricos e pobres, pois ela não tinha preconceito de classes sociais. E eu, já de quatro por ela, caí de vez a seus pés. Devo ter vestido tal expressão no rosto, porque em seguida ela me olhou firme.
- Não daria certo, nós dois. Você sabe.
- Eu não disse nada.
- Gosto muito de você pra te namorar.
- A gente podia tentar, talvez. Pra ter certeza.
- Está disposto a arriscar? E se não der certo? E se daqui a alguns meses eu estiver nessa mesa enchendo a cara de novo, reclamando de você pra outra pessoa?
Outra pessoa? Não. Ela estava certa, eu não queria arriscar. Pode ser que desse certo, mas o histórico dela me fazia crer que não. Eu não achava justo alguém como ela estar condenada à solidão. Mas, ela estava. E eu também. Pedimos outra cerveja, brindamos novamente à nossa companhia. Estávamos juntos, era o que me importava...

Celso Garcia