A maçã vermelha

Olhos abertos. Rudeza. Aspereza. Tristeza. Um ringue, essa é a verdade.
Cansou de lutar, de apanhar. Fechou os olhos.
Agora é gigante, maior que tudo. Usa prédios para palitar os dentes, os caminhões são seus patins. Gulliver sentiria inveja ao vê-la brincando de escorregador nos viadutos (estes não existiam em Lilliput). O oceano é a banheira onde toma banho e Moby Dick, o terror dos mares, é um pato de borracha em suas mãos. Quack!
Abriu os olhos. Dificuldade. Falsidade. Desigualdade.
Fechou os olhos de novo.
Agora pode voar, se quiser. Os pés descolando do chão, a gravidade tornando-se suavidade. Leve, mais leve, abre os braços, o vento sopra no rosto, lambe gentilmente os cabelos. Lá embaixo o mundo fica pequeno, as pessoas viram formiguinhas carregando cinquenta vezes o próprio peso nos ombros em forma de problemas. Sobe mais alto, gira, dá cambalhota em pleno ar, chega ao espaço sideral. Voa mais rápido que a luz (sim, Einstein, é possível). Chega ao fim do Universo, onde descobre que as galáxias e estrelas são papel de parede colados numa imensa bolha de sabão, prestes a estourar. Ploft!
Olhos abertos. Dor. Horror. Temor. Tudo era medo. 

Olhos fechados.
É invencível, feita de titânio e fogo. Inquebrável. Não há o que temer. Pode ficar invisível, se quiser. Pode dividir-se em duas, três, estar em vários lugares simultaneamente. Viajar no tempo, passado, presente e futuro são uma rua, um fluxo contínuo. Não há ontem e amanhã, apenas hoje. Também viaja no espaço em milésimos de segundo, o mais eficiente dos teletransportes. Nem japonês inventaria algo parecido. Zapt!
Abriu os olhos fortalecida. Encarou-o de frente.
Tinha a cara sulcada por preocupações e dores, o mundo. Aparentava ter o dobro da idade que tinha, o mundo. Não envelhecera bem, apesar das plásticas que lhe fizeram. Tinha as costas arqueadas, a voz rouca. Sua figura assustava, apesar do sorriso que trazia no rosto. Trazia uma maçã vermelha nas mãos, que oferecia aos que ousassem ser belos. Linda maça vermelha. Tão sedutora quanto venenosa. Quem a mordesse, aceitaria o mundo como era e tornar-se-ia parte dele, igualmente decadente.
Quis fechar os olhos, dormir para sempre, até que por mágica alguém a despertasse.
Mas de nada adiantava fugir. Hora ou outra o mundo daria as caras novamente, ainda mais assustador, com sua maçã vermelha.
Podia voar sempre que quisesse, em sua imaginação. De olhos fechados era gigante e invencível. Por que não sê-los também de olhos abertos?

Celso Garcia