Vira-latas

Estava em um canto, sentado sobre o chão, perto duma lixeira. Tinha os pés descalços, sujos e inchados. Talvez tivesse alguma doença naqueles pés, de tão maltratados que estavam. Fedia.
Cansara de andar, o mendigo. Cansara de pedir. Cansara.
Ali, jogado no chão ao lado da lixeira, tentava não chorar. Olhava ao redor, procurando o olhar das pessoas. Mas estas se esforçavam em fingir que não o enxergavam. 
Não queria dinheiro, cansara... Não queria comida, cansara... Estava farto. Sentia-se um lado imundo da sociedade. A sujeira varrida pra debaixo do tapete, o mendigo.
Tinha fome, é claro. Tinha sede, também. Ora, era humano afinal de contas. Invisível, mas humano – o que causava incômodo nas pessoas que por ali passavam. Precisavam acreditar que ele, o mendigo, não era igual a elas, as pessoas.
- Meu senhor... – disse o mendigo.
- Agora não, tô com pressa! – respondeu o senhor, entrando em seu carro italiano vermelho.
- Desculpa, minha senhora.. – tentou o mendigo com outra mulher, uma senhora adornada que saía do pet shop com seu poodle.
- Não tenho dinheiro, rapaz. – e madame seguiu seu rumo, com o cachorrinho no colo.
Por instantes o mendigo quis ser aquele poodle. Ser carregado nos braços de alguém que lhe tivesse amor, tomar banho, ser bem tratado, ter uma roupa – aceitaria até o laço rosa na cabeça. Chegaria em casa (ora vejam, ele teria uma casa!), brincaria com uma criança, comeria sua ração. Ração! Àquela altura, cairia muito bem um pouco de ração...
Eis aí uma boa ideia, pensou o mendigo. Na próxima encarnação gostaria de ser um cachorro, pra ter uma vida mais humana. Desistiu do devaneio ao concluir, logo depois, que certamente seria um vira-latas e passaria os dias remexendo lixeiras em busca de algo pra sobreviver. Que vida indigna pra um cachorro...
O mendigo se levantou. Os pés doíam, mancava. Parou no meio da calçada, forçando as pessoas a notarem sua presença. Tinha fome, tinha sede, mas não queria dinheiro. Indignado, gritou:
- Olha pra mim!
As pessoas olharam de soslaio – coitadas, era difícil observar o produto da indiferença frente a frente. Apenas uma garota encarou o mendigo. Devia ter uns 16 anos, voltava da escola. A pobrezinha se assustou, apressou-se em atravessar a rua. Seguiu seu rumo do outro lado.
Um cachorro latindo teria chamado mais atenção, pensou o mendigo. Ele deu meia volta e retornou mancando até o seu lugar. E as pessoas, aliviadas, voltaram a cuidar de suas próprias vidas...

Celso Garcia