Verdadeira Ascensão Social

A superação das desigualdades sócio-econômicas era uma meta antiga a ser batida pela grandiosa nação de Baquitera. Ao longo de duas intermináveis décadas o ditador Dermatófano Moscão levara com pulso firme os seus governados à beira do caos. A economia não ia nada bem das pernas e pelo quinto ano consecutivo a taxa de crescimento estimado não seria batida. As previsões indicavam um superávit de um e meio por cento apenas. 
Pela imposição da força, as varejeiras prosperaram por muitos e muitos anos e seus elementos proeminentes sempre desempenharam funções de destaque na administração pública federal desde os tempos do império. A população insatisfeita com anos de repressão, inversão de valores e censura não admitia mais a ação dos opressores. Saíram aos céus com as asas pintadas.
Uma população tão coesa, com ideologias a serem defendidas e reinvindicações legítimas, seria ouvida por bem ou por mal. Foi por mal. Um quebra-pau generalizado tomou conta da capital Diptera. As forças armadas foram convocadas e as manifestações se arrastaram por meses. Dermatófano caiu. Os rebeldes subiram ao poder. 
As forças de paz da OAVU (Organizações dos Animais Voadores Unidos) se fizeram presentes tão logo o governo provisório foi instaurado. Uma votação democrática, direta e legítima foi organizada. Saiu vencedor o líder da revolução. Henrique Moscovides tomou posse e tratou logo de convocar uma Assembleia Constituinte. Liberdade e igualdade seriam as garantias fundamentais. 
Aos nove meses do mês de abril do ano seguinte a posse, a Carta Magna foi promulgada. Denominaram a nação de República Democrática de Baquitera. Novos tempos estavam por vir. 

Onze anos mais tarde... 
Uma nova realidade era visível em Baquitera. A liberdade era óbvia. Os meios de comunicação exerciam seu papel e tinham sido fundamentais há três anos nas últimas eleições. O Baquiteran Way Of Life era veiculado. O nacionalismo tomara conta de todo território e o amor, pela liberdade e pela felicidade advinda dela, era visível. 
Uma classe média crescente, representada em grande parte pelas Domésticas, impulsionava a economia, entretanto não retratava a diversidade da miscigenação herdada dos tempos de colônia. 
A estratificação social era visível. Apesar de terem sido expulsas e algumas até exiladas, as varejeiras, donas de muitas posses, ainda eram a elite e respondiam pela parcela da sociedade com um poder aquisitivo maior. As Canarienses, em sua maioria, representavam a parcela mais humilde da população. 
O comandante dos exércitos anfíbios, responsável pela dizimação, escravização e quase extinção das moscas de Baquitera, sempre teve uma preferência pelos maus tratos às moscas da classe Canariense. Infelizmente, após anos de segregação, o retrato social não havia mudado. 
A crescente desigualdade social, combatida pelo governo de Alaor Mosquet era o principal alvo de críticas de Ana Moscarilo, senadora e pré-candidata da oposição no pleito do ano seguinte. Apontava como principal erro do governo o pacote de incentivo ao crescimento econômico através da assistência social. 
O pleito chegou. Na última semana de campanha as expectativas estavam apontadas para o último debate. Uma tradicional emissora nacional serviria de palco para o derradeiro embate. No tema Assistência Social deu-se a celeuma. Ana questionara Alaor a respeito do dito “assistencialismo”. O presidenciável rebateu apontando os números: Mais de cinquenta milhões de moscas acima da linha da pobreza e o programa nacional do pneu próprio. 
Na réplica, Ana apontou para o exterior e mostrou como as políticas de acesso à educação em outros países tinham dado resultado. Em vinte anos, a Grilolândia já havia mudado o quadro da economia. Com o dedo na cara de Alaor o acusou de imediatista e disse que não investia em educação por não obter os resultados mais populares. Apontou como solução a facilitação do acesso à educação aos cidadãos de classe mais vulnerável. Possibilitando uma melhor distribuição de renda e menor desigualdade. 

A resposta veio nas urnas. Apesar do assistencialismo, setenta e três vírgula quatro por cento dos votos válidos foram de Alaor. Uma campanha havia tomado a internet no dia anterior à votação. Mais de dez milhões de votos considerados nulos, mas a mensagem havia sido dada. Em grande parte deles lia-se: Sou Canariense, não abro mão da minha liberdade conquistada na igualdade.

Gustavo Dias