Livro em Cena: "O irresistível charme da insanidade"

Quando li essa obra do Ricardo Kelmer fui arrebatado pela trama, sobretudo pelos diálogos entre os protagonistas. Kelmer define sua história como tendo “um músico obcecado pelo controle da vida. Uma viajante taoísta em busca de seu mestre e amante do século 16. O amor que desafia a lógica do tempo e descortina as mais loucas possibilidades do ser.” A Isadora é uma personagem riquíssima, daquelas que dão sabor às histórias. O Luca é um tanto complexo, um homem tentando se entender na vida. Tomara que gostem das cenas escolhidas. Comprem o livro, pois não vão se arrepender. 
Boa leitura!

CAMPING / INTERNA E EXTERNA/ TARDE 

A Câmera faz um travelling pela barraca em que LUCA está, e fecha em close no rosto dele, que dorme. Ele abre um olho, e depoi o outro, reconhecendo o interior da barraca azul de ISADORA. Mas ela não está ao seu lado. Ele sente uma pontada de medo. E então sai da barraca e a vê sentada ao lado, à sombra de uma goiabeira, lendo o “I Ching”. 

Isadora: Bem vindo ao dia, Luca de Luz Neon. 
Luca (bocejando): O que aconteceu ontem? 
Isadora: Você dormiu. 
Luca: Dormi antes ou depois da gente... 
Isadora (rindo): Muuuito antes 
Luca: Que merda. 
Isadora: Melhor assim, você estava num estado lastimável. E ainda veio dirigindo! Se eu soubesse, não teria mandado aquele telegrama. 
Luca (protegendo os olhos da luz): Vende óculos escuro aqui por perto? 
Isadora: Sem desesperos. Eu te empresto o meu. 
Luca: Isadora, você é a mulher ideal. 

CORTA PARA 

RESTAURANTE / INTERNA / TARDE 

No restaurante, Luca pede uma cerveja para rebater a ressaca. Isadora começa a conta das praias por onde passara antes de chegar ali. 

Isadora: Em Canoa Quebrada quase fui presa, sabia? 
Luca: Por quê? 
Isadora: É que no camping tinha um viveiro de pássaros. E eu não aguento ver passarinho preso. 
Luca: O que você fez? 
Isadora: Soltei todos, claro. 
Luca: Não acredito. 
Isadora: A dona do camping desconfiou de mim e chamou a polícia mas não podia provar nada. 
Luca: Caramba, você é mesmo uma ameaça pra ordem estabelecida. (Para si) Inclusive para a minha. 
Isadora: Quê? 
Luca: N... Nada! 
Isadora: Sei... E a vida em Fortaleza, como vai? 
Luca: Tudo sob controle. 
Isadora: Tem show hoje? 
Luca: Não. 
Isadora: Oba. Então você pode ficar até amanhã. 
Luca: Ahn... Não posso. Hoje à noite tenho uma reunião importante. 
Isadora: Que pena. 
Luca: Negócios! Sabe como é, né, a banda está ficando mais profissional. 

Ele sorri, e toma um gole de cerveja. Ela o olha, com um sorriso entreaberto. 

CORTA PARA 

PRAIA / EXTERNA / FIM DA TARDE 

Eles estão caminhando pela areia, Luca levanta a areia com o pé, chutando para o alto. Isadora se protege dos grãos. 

Luca: E aquele bilhete, Isadora? Que abismo é esse que eu tenho que saltar? 
Isadora: Não sei. Você é quem devia saber. 
Luca: Claro que não. O sonho foi seu. 
Isadora (rindo): Mas o abismo é seu. (Pausa) Você está satisfeito com a sua vida, Luca? 
Luca: Tem coisas que podiam melhorar. 
Isadora: Você confia na vida? 

Ele demora a responder. Chuta uma pedra na areia. 

Luca: Não se pode confiar na vida cem por cento, Isadora, você sabe disso. 
Isadora: Por quê? 
Luca: Porque a vida é traiçoeira. Tem que estar sempre atento pra não ser apunhalado pelas costas. 

Isadora balança a cabeça, inconformada. 

Isadora: Entregue o controle, Luca. Isso é uma ilusão. 
Luca: Ilusão é achar que a vida se resolve por si só. É melhor controlar. 
Isadora: Claro que não! Controlar a vida acaba travando a vida. 

Ela apanha uma concha. 

Isadora: Confiar na vida parece loucura, eu sei. Mas tenta, vai. Eu ajudo. 

Ela tira a areia da concha e lhe entrega. Ele a encosta no ouvido. 

Isadora: Está ouvindo? É o som do abismo. Ele vai te sussurrar o caminho se a gente se perder novamente. 
Luca (guardando a concha): Novamente? 
Isadora: Sim, como quatro séculos atrás. 
Luca (Mais rude): Isadora, você sabe que eu não acredito em reencarnação. Acredito no real, no que eu posso ver. 
Isadora: Não importa. Você é Enrique, meu amor real. 
Luca: Mas como pode ter tanta certeza? 
Isadora: Eu sei. Apenas sei. 
Luca: Tudo bem, vamos supor que seja eu mesmo. Por que então não lembro? 
Isadora: Isso eu não sei. 
Luca: Se eu fui Enrique, então evoluí ao contrário. O cara era bruxo, fodão... 
Isadora: Quem sabe você esteja desperdiçando seu poder tentando controlar tudo. Onde tem controle, a vida não flui. Nem sobra espaço pro amor, sabia? 
Luca: Você e Enrique se amavam mesmo? 
Isadora: Muito. 
Luca: Por que ele não voltou pra você? Quer dizer, pra Catarina? 
Isadora: Não sei, disso eu não consegui lembrar. Enrique tinha inimigos, acho que ele acabou sendo pego. 
Luca: Bem, se eu fui Enrique, então eu poderia saber o que houve com ele. 
Isadora: Se realmente precisar saber, saberá. 
Luca (inconformado): Isso é confiar demais no destino, Isadora! Como se tudo já estivesse escrito. 
Isadora: Nada está escrito. Temos que fazer tudo. 
Luca: Fazer tudo? Isso não contradiz o seu princípio taoísta de não forçar as situações? 
Isadora: Contradiz mesmo. 
Luca: E então? 
Isadora: Então temos de fazer tudo, mas sem forçar as situações. 

Ele suspira, desistindo do assunto. Os dois continuam caminhando pela praia, e a câmera fica parada, vendo-os se afastarem. Sobe a trilha. 

CORTA PARA