Inventando: "A ceia de natal"

Chegou o natal. E nada é tão mágico quanto esse período. Mesmo com os excessos do comércio, que transforma a data num verdadeiro Atacadão, e lota os centros de compras das cidades de um modo que fica quase impossível sequer respirar, essa é uma época em que as pessoas estão naturalmente mais propensas à confraternização, aos desejos mútuos de felicidades. Seja o nascimento de Cristo, seja o tempo do Solis Invictus, esse é um momento de alegrias. A cena a seguir é um reflexo disso. É uma reunião familiar, onde todos os defeitos pessoais são menores que a vontade de estarem ali, juntos.
Boa leitura!

CENA: APARTAMENTO DE LÍDIA / INTERNA / NOITE
Observação importante: O cenário é de um apartamento pequeno, com ambientes (sala, cozinha) bem próximos, para facilitar a locomoção e a interação.


LÍDIA (Uma mulher com estilo bastante sofisticado, mas sem exageros) e ALVARO (Um típico empresário do mercado financeiro que gosta de cozinhar nos fins de semana) estão preparando a ceia de natal. Ela está arrumando a mesa, enquanto ele está terminando de temperar o peru para ir ao forno. A primeira tomada deve pegar de modo bastante livre estas ações deles.


LÍDIA
(em tom alto)
Amor, terminou aí?

ALVARO
To quase. Tá pensando que é facinho temperar isso aqui, né?

LÍDIA
Ai, não começa, Alvaro. Até parece que você não sabe fazer isso aí.

ALVARO
(cantarolando)
Também te amo.

LÍDIA
Meu Deus, que homem besta!

A campainha toca. Lídia vai abrir e vê MAURA (Uma senhora muito fina), mãe de Lídia, que chega com uma travessa de pavê nas mãos.

LÍDIA
Ué, mamãe. Chegou cedo hoje!


MAURA

Resolvi vir mais cedo um pouco. Se você precisar de alguma ajudinha, tem a mamãe aqui com você.

LÍDIA
Ah, mas não precisava. E ainda trouxe pavê.

MAURA
Pedi pra Dazinha fazer lá em casa. Sabe como é essa sua mãe na cozinha, né? (risos)

Maura senta-se no sofá e fica olhando para tudo, mas sem intenção de ajudar Lídia. Alvaro vem chegando da cozinha, limpando as mãos, para cumprimentar Maura.

ALVARO
Dona Maura. Que bom que a senhora veio.


MAURA
Oi Alvaro. Tudo bom, meu querido?


ALVARO
Tudo certinho. E a senhora?


MAURA
A senhora está no céu, mas a Maura está louquinha pra saber quando vai ter um netinho. Será que você tem essa resposta?


ALVARO
Ah, Dona Maura. Tudo tem seu tempo, né.


MAURA
Mas o tempo tá devagar aí, né? Custei a inaugurar essa fábrica de netos. E ela segue improdutiva.


LÍDIA
(Surpresa)
Mamãe! Eu, por acaso, sou um produto.


MAURA
Produto não. A indústria.


LÍDIA
Isso. Olha só como a senhora fala de mim, mãe.


ALVARO
Bom, acho que vou colocar o peru no forno.


MAURA
No forno?


LÍDIA
(interrompendo bruscamente)
Mamãe!!


MAURA
Tô surpresa porque achei que o frangão já estava assando Lídia. Deixa de ser mente suja você também.


Lídia se cala. Alvaro sai para a cozinha. Ela o segue. Maura volta a sentar-se no sofá. A campainha toca novamente.


MAURA
Eu atendo, meninos. Pode deixar.


Ela abre a porta e vê o irmão de Alvaro, RAFA (rapaz mais jovem, menos certinho que Alvaro), GABRIELA (esposa de RAFA, usando um vestido curto, mas bem comportado) e LUQUINHA (Menino com sardas no rosto, vestido bem à vontade e usando um boné), que também participarão da ceia. Luquinha entra correndo pelo apartamento, sem cumprimentar Maura.


MAURA
Esse aí já está em casa, né!


RAFA
É sim. Ele não pára quieto. Ainda mais quando está na casa do tio.


MAURA
Olha aí. Que beleza, né?


GABRIELA
É sim. Lindo esse meu menino.


MAURA
É... Minha filha podia entrar nesse clima bonito da maternidade, né.


Elas continuam conversando. A cena ganha um efeito de relógio, e vai passando com rapidez, com tomadas livres de todos transitando pelo cenário e conversando. Quando para a animação do relógio, Alvaro se levanta do sofá.


ALVARO
Acho que o peru tá pronto.


LÍDIA
É melhor ir olhar isso. Natal sem peru dá azar.


MAURA
Filhinha... Não é só o natal que fica de mal humor sem peru.


Todos caem na gargalhada. Lídia fica muito envergonhada. Faz menção de dizer algo, mas se retrai, sem saber o que falar.


RAFA
Eu vou contigo, Alvaro.


Eles saem para a cozinha. A câmera os acompanha. Alvaro abre o forno e vê que o peru está no ponto. Quando ele está tirando, Luquinha entra correndo na cozinha. Rafa o segura no susto, com medo dele se queimar. Com o susto, Alvaro deixa o peru cair no chão, e ele vai deslizando pela cozinha, indo para a área de serviço e parando na porta do banheiro de empregada. Alvaro e Rafa se olham.


ALVARO
Ih, caraca. E agora, cara?


RAFA
Ué. Cata lá logo. Ninguém vai nem perceber não, cara. O que não dá é pra ficar sem peru no natal, pô.


LUQUINHA
(rindo e falando alto)
O perú... (Rafa tapa a boca do menino, fazendo sinal para ele ficar calado)


Alvaro pega rapidamente o peru e o ajeita na bandeija. Eles se olham mais uma vez. Rafa e Luquinha sorriem, e fazem sinal de zíper na boca, com cumplicidade. Alvaro vai levando o peru com um sorriso amarelo na boca. Quando eles voltam para a sala, todos já estão à mesa.


ALVARO
Perú chegando! Agora já podemos comer.


MAURA
Até porque meu estômago já está, de um modo muito elegante, reclamando aqui.


Todos soltam mais uma gargalhada enorme, e vão se servindo. Alvaro, Rafa e, principalmente Luquinha ficam esperando os outros comerem. Maura é a primeira a comer o peru.


MAURA
Hum... Dessa vez você acertou muito, Alvaro. Que tempero incrível.


ALVARO
(abaixando a cabeça para disfarçar o riso)
Que isso, Dona Maura.


Luquinha começa a rir.


LUQUINHA
A vovozinha comeu o perú... (arregala os olhos e faz um zíper com a boca, olhando para Rafa)


Todos riem muito com o jeito que Luquinha falou.


RAFA
(rindo e olhando para Luquinha)
Ai, ai... Crianças.


Rafa pisca para Luquinha, que retribui a piscada. Dona Maura fica rindo, mas com jeito desconfiado. A ceia segue.


FIM