Inventando: "Causa Justa"

Este mês essa seção vai ser uma invenção. Ao invés de uma cena única, será uma sequência com três passagens, onde Helena, uma ativista do meio ambiente vai brigar com o prefeito da cidade e o industrial que quer construir uma fábrica de móveis na área da mata verde com uma nascente. Helena tem consciência e nenhum medo de enfrentar "poderosos". Essa sequência é de uma criação minha de algum tempo, que inclusive eu apresentei aqui no blog, na antiga seção "Literatura em capítulos".
Boa leitura!
----------
SEQ.01 – CASA DE HELENA / INTERNA / DIA

Helena (alta, magra, com jeito inteligente) está reunida em sua casa com Carol (baixinha, não muito magra, com cabelos cacheados), Rodrigo (alto, magro, forte, com a barba por fazer e vestido com trajes de roça) e Augusto (loiro, estatura mediana, muito bem vestido). Eles estão conversando sobre a nova fábrica de móveis da cidade, que deve ser construída na área da mata que guarda um manancial. A cena começa com eles já discutindo o que fazer.

HELENA
Já sei. Eu vou falar com esse Hugo Pontes. Vamos ver o que ele tem a me dizer.

AUGUSTO
Lá vamos nós pra uma enrascada.

HELENA
Se quiser, você pode ficar aí, Augusto.

AUGUSTO
Nada disso. Eu posso até não concordar com você, mas não deixo um amigo na mão de jeito nenhum. Se você vai à casa do lobo, eu vou junto.

HELENA
(com ternura)
Eu já te disse que você é um ótimo amigo hoje?

AUGUSTO
(debochando)
Você sempre diz isso pra todos!
HELENA
Não seja chato, Augusto.

Eles começam a rir, e o som da cena vai sendo substituído por um barulho de carro, que segue na próxima cena.

FUSÃO PARA


SEQ. 02 – CARRO DE AUGUSTO / INTERNA / DIA

Helena e Augusto estão no carro dele a caminho da casa de Hugo Pontes. Eles estão sérios, olhando para o caminho.

AUGUSTO
Helena, posso te pedir uma coisa?

HELENA
Diga.

AUGUSTO
Deixa que eu falo com ele.

HELENA
(curiosa)
E por que isso agora?

AUGUSTO
Você é muito esquentada. Eu converso melhor. Do jeito que você é, não demora nada e já estamos declarando guerra.

HELENA
(brava)
Valeu por pensar assim de mim, Augusto. Troféu joinha pra você, tá!

AUGUSTO
Você mesma sabe como é. Tô mentindo?

HELENA
Tá, tá... Vou me segurar. Você pode começar lá a conversa.

Os dois voltam a ficar calados. Helena está séria, não gostando nem um pouco da ideia. Augusto exibe um sorriso bem discreto nos lábios.

CORTA PARA


SEQ. 03 – CASA DE HUGO PONTES / EXTERNA / DIA

Chegando à casa de Hugo Pontes (homem de meia-idade, meio grisalho), eles o encontram despedindo-se do prefeito Zé Carlos (homem magro e bem vestido, com um cabelo impecável) na porta.

HELENA
Mas que bom ver o Prefeito aqui também!

AUGUSTO
(sussurrando)
Helena, você falou que ficaria quieta, pelo menos no inicio.

HELENA
Não dá, Augusto. Eu mal cheguei e ele já está me provocando.

HUGO PONTES
(debochando)
Então são vocês os grandes defensores da mata de Belmonte?

HELENA
Pois é. Somos nós! E então são vocês os grandes destruidores.

HUGO PONTES
Calma aí, mocinha. Eu estou trazendo progresso, empregos...

HELENA
Concordo, Senhor Hugo. Só não concordo com o meio usado pra isso.

ZÉ CARLOS
(interrompendo)
Helena, o Senhor Hugo Pontes é um visionário.

HELENA
É, enxerga longe, tanto quanto o prefeito ma-ra-vi-lho-so que temos.

ZÉ CARLOS
Você tem raiva de mim porque venci seu pai nas eleições.

HELENA
Não, senhor. Eu tenho raiva de você porque faz uma administração desastrada e imbecil, olhando só para o próprio umbigo, e não medindo o preço do seu populismo.

AUGUSTO
Helena, ele é o prefeito, esqueceu?

HELENA
Um prefeito que nem se importa com a qualidade de vida dos seus governados não é um prefeito. É um destruidor em massa. Olha, se o senhor fosse iraquiano, eu diria que é a arma que o Bush tava procurando.

ZÉ CARLOS
Olha, eu não vou ficar ouvindo essa garotinha mimada. Tenho que ir.

HELENA
Não, fique tranquilo, prefeito. Eu só vim dar um recado, até porque é impossível conversar com você. Na mata ninguém toca. Não ousem enfrentar o povo.

ZÉ CARLOS
Isso é o que nós vamos ver. Quero só ver se seu discurso vence com o povo depois que eles ficarem sabendo que vão ter emprego, dinheiro pra gastar.

Helena olha para o Prefeito Zé Carlos com desdém.

HELENA
O recado tá dado, ok?!

ZÉ CARLOS
Boa sorte, garotinha!

Helena sai pisando firme dali. Hugo Pontes fica sem entender nada.

HELENA
(para si, mas audível para Augusto)
Isso não vai ficar assim!

AUGUSTO
Ah é, justiceira?

HELENA
Não to brincando. Vamos fazer um movimento nessa cidade.

AUGUSTO
Lá vem você com suas ideias, Helena.

Helena pára, olha muito séria para Augusto, e diz:

HELENA
Você vai ver.


Ela entra no carro e bate a porta forte. Ele fica um momento paralisado, mas logo entra no carro e sai.

CORTA