Para você, água. E para ti, anéis

“-Queremos saber o nosso futuro! Com detalhes, por favor. Disseram que a senhora era boa. Pagamos bem, mas queremos saber exatamente como vai ser o nosso futuro, sem que a senhora saiba nada sobre nós. Vamos ver do que você é capaz”, Foi o que disse ela à cartomante.
Eram cinco raparigas fêmeas. Ansiosas, não contentavam-se com a ordem natural das coisas e com os sonhos. Queriam saber da boca de alguém que diz ver o futuro, o que lhes pertencia viver dali à uns anos. E assim foi. Catarina, Renata, Soraia, Ana e Tânia.
Alzira era o nome da cartomante. Também vendia-se como mãe-de-santo, curandeira, e outras atribuições que não são necessárias aqui citar. Morava num subúrbio, e atendia em sua casa, que era modesta, demasiadamente decorada, com artigos místicos, e cheirava à incenso e arruda.
Logo após os primeiros cumprimentos e pedidos, sentaram-se á sua frente as raparigas, trêmulas por querer saber o que lhes esperava os anos próximos.
Alzira fechou os olhos, e começou a murmurar palavras. Depois, mastigou folhas de uma erva, e tomou um copo de água. As jovens acharam tudo muito estranho, mas deduziram ser um ritual. Apesar de uma ou outra delas duvidar muito daquilo tudo, no fundo alimentavam a ansiedade por saber o que aquela senhora esquisita, baixinha e já bastante velha diria.
- Creio em Deus pai, no meu Amor de seu filho, santa madre e padiciço, amém. Vamos começar.
- Mas, e as cartas? Não vai jogar? Indagou Soraia.
- Não é preciso. Só peço que vocês se levantem, cada uma na sua vez.

Obedeceram. Olharam-se. Levantou-se Catarina. Alzira olhou fixamente em seus olhos; Depois, com seus olhos fechados com força, mentalizou, e assim ficou por uns instantes.
- Pode sentar filha. Eu vejo um homem do teu lado, um rapaz bem apessoado e bonito. Ele te beijava com muita ternura pra ser menos do que teu enamorado. Tem uma mulher vestida de preto atrás de vocês, ela está atirando pedras na sua direção, mas o moço se coloca na tua frente, dando as costas às feridas, mas te protegendo. Ele não sabe, mas tu esperas um filho. Não vejo ostentação. Vejo uma vida confortável. Tu choras. Choras de Saudades. Estás longe da tua família, filha. E teus amigos não vês á muito. Ouço risos de um homem. Tem um cachorro lambendo o rosto da tua criança. A mulher de preto anda pela tua rua, e tem pedras na mão, mas não sabe onde tu moras, não vai te achar se você não aparecer. E é só filha.

Catarina sentou-se. Fez-se de forte para não chorar. Levantou Renata. O mesmo ritual.
- Tu estás de branco filha. Eu ouço choro de crianças, muitas crianças. Vejo um quadro na parede. É uma escritura. Tu sentes saudades, mas não choras. Não vejo em teu dedo aliança. Vejo sapatos de mulher por todo canto na tua casa. Mas não vejo anel. Tu sentes sede, e na tua mão há um copo com água. Ele está cheio. E só, filha.

Levantou-se Soraia.
- Há pessoas gritando teu nome. Há muitas folhas de papel na tua mão, e uma multidão está estendendo a mão pra poder pegar um. Tu estás sorridente, e cantarolas muito. Agora tu corres, e a multidão te segue. Não queres ser pega, mas estás sorrindo de achar graça daquilo. Vejo uma casa muito bonita, tu estás na janela. Não há ninguém contigo. Não lhe vejo anel. Há ostentação à tua volta filha, e tu gostas muito daquilo. Tu sentes saudades, muitas saudades. Tu choras por isto. Tu seguras fotos, muitas fotos. Elas estão velhas. Tu tens desejos de um rapaz que não faz parte do teu presente. No lado de fora da janela, a multidão ainda grita teu nome, pedindo para que desças. É só, filha.

É a vez de Ana.
- Tem um rapaz ao teu lado, segurando tua mão. Há anéis nas mãos de vocês. O rapaz que está contigo não é muito alto, e não faz tempo que tu conheceste. Tu cantarolas. Choras de saudades. Há um copo de água na tua mão, e está cheio, mas tu não tens sede para tanto. Tu pulas e sorri muito. Há uma casa bonita, e o rapaz que te segurava á mão esta lá dentro, olhando no relógio esperando tua chegada. É só, filha.

E por fim, levantou-se Tânia.
- Há ostentação á tua volta. É uma casa muito bonita. Tuas roupas estão sujas de tinta. Não vejo anéis em tua mão. A ostentação está em toda parte em que tu andas. Tu sentes saudades, mas não choras. Vejo homens do lado de fora da tua casa, vestidos de terno. Apenas um dele veste roupas largas. Ele espera por ti, mas a porta de tua casa é pesada, não sabes se tem força o suficiente para abrir. Vejo também... Não, não. É só filha.

Houve silêncio. Elas gostaram do que ouviram, mesmo sem discernir muito bem muita coisa. Tiraram de seus bolsos notas de vinte reais, e deram á velha.
- Vão em paz, e sejam felizes. Espero vocês de volta.

Quer saber mais, leitor? A velha era uma charlatã. Era verdade que não sabia nada da vida daquelas jovens, mas era nítido o tamanho da ansiedade das mesmas, de forma que qualquer coisa que ouvissem, num tom de carinho e dramático, as fariam pelo menos pensar.
A velha não sabia que, muita coisa do que foi dito, a maioria na verdade, coincida com os anseios futuros daquelas jovens.
As raparigas mal se falaram, e foram para suas casas pensar.
Quatro ou cinco meses depois, ouviram dizer que a velha havia morrido. Jantaram juntas naquele dia. Riram freneticamente ao lembrar do episodia com a “feiticeira”. Riam, riam e riam. Mas no fundo, lá no fundo do coração, os seus dedos estavam cruzados, para que quando o futuro chegasse, o que a aquela velha falara de bom, se concretizasse. Que os copos estivessem cheios de água. Que pelo menos alguma coisa que por elas foi sonhado, se tornasse realidade.
Entenderam que faltava ainda muitas e muitas horas para o futuro. Mas, escondidas, olhavam hora ou outra para o relógio, esperando o dia em que algo daquilo que elas muito desejavam, batesse á sua porta, pedindo pra morar com elas permanentemente.

Cláudio Rizzih