Literatura em Capítulos: Vidas Amigas

Capítulo VII 

"Todos ouvem o que você diz. Os amigos escutam o que você fala. Os melhores amigos prestam atenção ao que você não diz". 

Mais um dia amanheceu em Belmonte. O canto dos pássaros denunciava que este seria um dia de sol e multicores, próprias das flores que enfeitavam a praça principal da cidadezinha. Diego acordou muito bem disposto naquele dia. Era dia de missa, e ele queria levantar bem cedo para ir à praça e ver se aquela garota bonita passaria por lá. Ele já estava bem entendido dos horários do padre. Quando o amor invade o coração das pessoas, elas são capazes de muitas coisas para poderem ficar perto de suas amadas. 
Naquele dia, em especial, Diego resolveu levar sua irmã, Laurinha para a missa. Esse foi um convite tão inusitado da parte de Diego, que ela não recusou só pra ver o que seu irmão, que nunca foi dado a igreja, estava aprontando. Certamente tinha alguma garota na mira de Diego, e Laurinha ficou muito curiosa para saber quem era essa menina que fez seu irmão gostar tão rapidamente daquele ovo de cidade. 
Chegando à igreja, Diego viu logo sua amada, cujo nome ele desconhecia, sentada ao lado de sua mãe na primeira fileira. Só mesmo alguém apaixonado poderia enxergar da porta da igreja uma pessoa sentada de costas para ele, e tão longe do lugar em que estava. 
- Nossa! Você tá gostando mesmo dessa menina. Viu daqui mesmo, ou tá brincando comigo? 
- Claro que não, Laurinha. É ela sim. 
- Aham... E agora vem aquela parte do “me ajuda, irmãzinha”? 
- Isso aí, garota esperta. 
- Sabia. Você não dá ponto sem nó, hein, Diego! 
- Ah, por favor, Laurinha. A mãe dela é muito brava. Pelo menos tem cara de ser aquelas papa-hóstia que ficam igual um pitbull com raiva quando alguém se aproxima da filha dela. Como você também é menina, deve ser mais fácil. 
- Tá bom... O que eu não faço pelo meu irmão querido? 
- Obrigado. Eu vou sentar aqui na ultima fileira. E você vai lá e senta do lado dela. 
- Ok! Vou lá pro sacrifício... 
- Valeu, irmãzinha. 

Laurinha foi lá sentar-se ao lado de Ana Maria. Em pouco tempo já estava conversando com ela e sua mãe. As duas gostaram do jeitinho meigo e extrovertido da garota. É o tipo de gente da cidade grande que agrada aos que vivem em lugares pequenos, pois, ao mesmo tempo em que despertam curiosidade por serem de um universo social diferente, atraem pela educação, coisa que normalmente não se vê em turistas, forasteiros, pessoas de fora do ritmo do lugar. 
A missa transcorreu normalmente. Beth ficou muito entusiasmada com Laurinha, que, por não ter nada de boba, sabia muito bem como se comportar dentro de uma igreja e, deste modo, fascinou a mãe de Ana Maria, e também a própria Ana. Tanto que, ao final da missa, Beth, que não se desgrudava de sua filha, a deixou por um momento a sós com Laurinha, enquanto ia cumprimentar o padre. Foi a deixa que Laurinha queria, mas não esperava que acontecesse. 
- Olha, eu vim aqui porque meu irmão gostou muito de você, mas tá com medo da sua mãe. 
- Seu irmão? 
- É... Aquele bobinho ali na saída da igreja. 
- Ah! Eu lembro dele. Mas porque ele mesmo não veio falar comigo? 
- Por causa da sua mãe, né! 
- Ah... Mamãe é muito protetora mesmo. Ás vezes me sufoca. 
- Pois é. Por isso ele me escalou pra essa operação cupido. 
- Laurinha, você agora é minha melhor amiga. E vai ser mais ainda se me ajudar nisso. 
- Vou ajudar. Até porque eu quero ver meu irmão feliz. E ele está com os quatro pneus arriados por você. 
- Como? 
- Nada... Esquece. Sua mãe tá voltando. 

Dona Beth voltou para perto das duas, e elas logo se despediram. Enquanto Beth levava sua filha para dar a benção ao padre, Laurinha foi rapidamente contar o que descobriu a Diego, que já esperava na saída. Ele estava bem ansioso. Era difícil disfarçar. Esfregava as mãos, olhando para o altar a todo momento. Laurinha chegou, mas nem conseguiu começar a falar direito, já que do lado de fora da igreja começou um burburinho. 
Lá, na praça, Carol, Augusto Helena e Rodrigo estavam cercando os fiéis que saíam da missa, entregando-lhes um folheto com informações contra a chegada da fábrica de Hugo Pontes na cidade. Sim, era uma tarefa árdua e ingrata, pois o assunto era difícil de ser debatido, já que a fabrica traria empregos, e, por dinheiro, leitor, o homem é capaz de fazer qualquer coisa, até mesmo botar abaixo a floresta amazônica. Imagine uma matinha que, na concepção pequena de alguns habitantes, não valia de nada. 
Esta era só a primeira ação. Helena resolveu produzir esses folhetos enquanto a passeata não ficava pronta, com tudo que necessitava. Pelo menos servia, o folheto, de um primeiro alerta aos cidadãos de Belmonte. 
- Será que isso vai dar certo? – Perguntou Rodrigo à Helena. 
- Só saberemos ao final do tentar, meu amigo. Mas eu confio que sim. 
- As pessoas olham meio torto. – Ponderou Augusto. 
- Eu já sabia que isso aconteceria. Mas faz parte, gente. – Disse Carol. 
- Vamos parar de conversar e entregar os folhetos? 

Helena não queria mesmo saber de perder tempo. O Prefeito Zé Carlos era uma raposa, e, se eles bobeassem, ele logo apareceria com uma promessa dessas do tipo “tábua de salvação”. Era preciso estar sempre um passo à frente dele. E Helena bem sabia disso. Era muito jovem, mas tinha uma esperteza política nata, e rara nas pessoas. Ela sabia que quando um espaço não é ocupado pelas boas ideias, os aproveitadores, invariavelmente, ocupam. E ela lutava pelo certo. Era preciso achar uma maneira de dar ao povo seu sustento, sem que, para isso, se perdesse o equilíbrio ecológico do lugar. 
Helena olhou para Rodrigo, e com os olhos, o pediu para ir à porta da igreja. Lá estavam Diego e Laurinha. Naquele momento, sem nada dizer, Rodrigo entendeu Helena. Apenas no olhar que ela lhe lançou, e foi entregar o panfleto aos garotos.

Leonardo Távora