Aterro Visceral

O caminhão do lixo acaba de passar. Vira a esquina, e eu venho ao papel.
Botei dois baldes de lixo da minha casa para fora ás pressas, quase deixando a coleta escapar. Mais um pouco, e o lixo ficava mais uma semana dentro de casa.
Quando você está perto de um caminhão do lixo, você geralmente pensa em como deve ser triste trabalhar com aquilo, ou pensa “quanta porcaria!”, ou "que nojo!", ou não pensa em nada á não ser sair logo de perto daquele cheiro insuportável.
Pois eu deitei a cabeça nos braços sobre o muro, e fiquei olhando o caminhão, e as sacolas, até que me sumissem de vista.
Pensei em quanta coisa estava sendo jogada fora, que ia além do orgânico, do plástico, do metal. Havia ali sentimentos, no meio da podridão, e nem todos eles exalavam cheiros ruins. Com o caminhão, iam-se dias, e horas e momentos.
Talvez fossem os cacos de vidro do copo que ela atirou na parede num surto de raiva, conseqüência da discussão com ele. A boneca sem cabeça, que entrou para a família á tantos anos atrás, e que agora de nada serve. Ou o frasco de perfume dele, que acabou, levando as ultimas partículas do cheiro hipnotizador, que a fez delirar muitas vezes.
Não estou dizendo que tudo deve ser guardado em casa, não. Viraria um aterro. Só parei para pensar em todo o perfume que havia ali, no meio do lixo, do podre. Mas é necessário ter um outro olfato, para sentir este perfume. São aromas possíveis de se sentir até mesmo com o nariz tapado, se você quiser.
Me ocorreu também, quanta sujeira tem aqui para ser jogada fora. Aqui. Em casa, no meu quarto, em minhas mãos, em mim.
É. Na próxima quinta-feira, vou colocar para fora algumas sacolas mais, repletas de coisas que precisam ser eliminadas. Ao mesmo tempo em que, vou reciclar muitas coisas que podem ainda ser “reutilizadas”. Revividas eu diria. Principalmente, aquelas que não são compostas por sentimentos biodegradáveis, mas sim, os que intoxicam e poluem. Estes são os melhores.

Cláudio Rizzih.