Uma história de dois corações

Era uma ensolarada tarde. Ela parecia triste com aquela situação, mas sua decisão já estava tomada. Pensar mais um pouco... Não. Era impossível continuar nesse erro. Por quê? Não é preciso explicar. Sentimentos não são coisas que se explicam, apenas sentimos. E sentimos porque somos humanos, porque pensamos, enfim, porque sentimos.
- Por que você não está feliz comigo?
- Sinto que você já não me faz mais tão feliz.
- Algo que deixei de te dar?
- Claro que não. Bom, pelo menos materialmente não.
- Afetivamente?
- Sim. Vejo que você não se preocupa mais comigo. Sinto falta dos seus carinhos. Falta do seu abraço. Do seu beijo. Sinto falta de você!
- Mas eu tenho que trabalhar. Chego cansado. Não dá pra considerar isso? É difícil ser legal o dia todo. Tenho que agradar patrão, colegas de trabalho...
- Você tem que agradar todo mundo, menos a mim. Não dá mais.

Se você for parar para pensar, fica louco. Quanto vale uma vida? Quanto vale uma história de amor? Quanto vale se arriscar para vivê-la? Que sentido tem tudo isso? São coisas que parecem pequenas, mas, ao contrário do dinheiro e do status, formam a verdadeira felicidade. Você é feliz? Pense nisso. Ela resolveu dar um basta naquela vida. Chega. A complicada relação estava no fim. Ele já não sabe como argumentar. Ele também não é feliz com aquela vida. Mas é acomodado. Não consegue perceber que o que está ruim pode sim melhorar. Basta querer e batalhar. Assim é que se é feliz? Pode ser...
Felicidade não é ter um carro do ano. Não é possuir um produto da moda, seja ele qual for. Esse sentimento não se compra, nem se vende. Pode ser doado, quando um coração ama, e faz com que esse sentimento seja sentido para além do corpo em que habita. Felicidade é um sentimento que se descobre quando o corpo, a mente e o espírito estão em harmonia. Esta é uma história de felicidade. Mas por que parece tão triste? Porque é uma história de descobrimento, pois felicidade não é algo que se ganha, assim, de presente. É algo que se descobre, que se conquista.
Voltando à história, ela agora já está na porta, pronta para dar adeus àquela vida tão sem graça que vivia. Pronta para colocar um fatídico ponto final em uma história que já não rende mais os bons frutos. Ele pergunta: “E se eu mudar?”. A resposta é um aceno negativo com a cabeça. Será que não existe mais nenhuma possibilidade de haver um ambiente feliz ali? Talvez até exista uma sobrevida nessa relação. Mas a melhor pergunta a se fazer aqui é: Vale a pena tentar?
De repente, ela se vira. Corre em direção a ele e pára. Os dois se olham intensamente. Eles se falam com os olhos. O olhar também fala, sabia? Incrível, mas por um minuto eles pararam de pensar com a cabeça para deixaram o olhar falar. E o coração falou. Num impulso, num beijo, tudo ficou tão mínimo. Tanto que os problemas desapareceram. Pelo menos naquele momento.
- Se você tivesse acreditado na minha brincadeira de dizer verdades, teria ouvido as verdades que insisto em dizer brincando. Sempre achei essa frase interessante. Hoje eu entendo.
- Mas, você acabou de me beijar.
- Para te provar o que eu estou sentindo. O que eu estou te falando... Você não entendeu nada.

Ela abaixou a cabeça e saiu. Agora definitivamente. Foi triste sim, mas às vezes é importante receber uma resposta assim de alguém que gostamos muito. Isso ajuda-nos a entender que não importa o quanto você ame uma pessoa e se esforça para ser o melhor para ela, se o sentimento não for recíproco, de nada vale. Nada mesmo. Ao invés de vivermos uma história bonita, muitas vezes vivemos um verdadeiro inferno particular, repleto de brigas e desentendimentos sérios, muitas vezes sem o respeito mínimo que um precisa ter pelo outro.
Ele então se pos a chorar. Homem não chora, dizem os mais duros. Quanta bobagem. Quanta hipocrisia. Ele a amava muito, mas muito mesmo. Talvez não tenha podido dizer o quanto era grande esse amor. Talvez ele não soubesse como demonstrar. Tudo o que queria era que ela sentisse que ele a ama também. Na verdade, tudo o que ele queria era que ela o amasse também. E tudo o que ela queria era que ele sentisse o amor que ela lhe dava gratuitamente. Mas um já não mais conseguia enxergar o sentimento do outro. É possível sim que esse sentimento já nem existisse mais. Seu coração doía, e isso já era um motivo suficiente para que lágrimas rolassem de seus olhos.
Vendo isso podemos nos perguntar: Vale a pena amar? Vale a pena sentir um enorme afeto por outra pessoa? Pra que? Por quê? A grande resposta é que talvez o amor seja a maior de todas as dores que o ser humano pode sentir. É muito complicado amar. Claro, prazeroso também. É tenebroso sentir que a pessoa que você ama pode não sentir nada, nenhum mísero afeto por você. É horrível... Terrível. Essa é uma história que vale a pena. Não porque conta o fim de um romance, mas porque mostra o quanto o homem ainda precisa aprender sobre si e, principalmente, sobre os seus semelhantes.