Livro em cena: "A Luneta Mágica"

Bom, pessoal, chegamos a mais um “Livro em cena”. É um motivo de grande alegria eu poder emplacar mais um mês desse projeto. Desta vez, sigo numa incursão pelos clássicos da literatura brasileira. Agora, recorro a Joaquim Manuel de Macedo, e seu brilhante “A Luneta Mágica”. Ele é um expoente do romantismo no Brasil. Esse foi um dos períodos de grande produção literária de nossa história, e deve ser sempre lembrado e estudado, pela importância e a riqueza de suas obras. Devemos procurar olhar essa fase da literatura pelo lado mais lúdico, leitores. Claro que a imposição que nos é dada nas escolas acaba por nos traumatizar, e passamos a ter certo horror dessas obras.
Porém, se conseguirmos ler esses livros de palavreado rebuscado com calma e paciência, nós teremos sempre uma fonte riquíssima de informações sobre a época, além de termos o prazer de viajar por universos fantásticos, dentro de uma visão incrível do que o próprio autor imaginou quando escreveu essas histórias encantadoras. Na cena em questão, nosso protagonista Simplício se encontra com o velho Nunes, um senhor que lhe apareceu há pouco tempo, que está louco pra saber o que ele achou da luneta que ele lhe conseguira. Uma cena interessante e bem gostosa de ler. Boa leitura a todos! Quero saber, lá nos comentários, o que vocês acharam, hein.

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CENA: BAR / NOITE / INTERIOR

Simplício está sentado numa mesa do bar.
Nunes chega, e procura por Simplício.
Ao vê-lo, vai logo em sua direção.

Simplício: Meu velho amigo!
Nunes: Como vai, Simplício?

Os dois dão um aperto de mãos, firmemente.

Simplício: Sente aqui comigo.
Nunes: Então? Que tal achou da luneta?... Estou ansioso por sabê-lo... Não dormi um instante toda noite... Que me diz da luneta?
Simplício (empolgado): É admirável, meu amigo.
Nunes: É, na verdade, mágica?
Simplício: Estupendamente mágica.
Nunes: Conte-me alguma coisa...
Simplício (Com medo de falar): Outra hora nós falaremos disso.

Nunes sorri agradavelmente. Está feliz pela amizade com Simplício.
Depois de pouco tempo de reflexão, Nunes diz:

Nunes: Eu creio que nasci predestinado para lhe ser útil.
Simplício: Já lhe devo muito.
Nunes: E vai dever-me mais... O seu primeiro projeto é justo, mas arriscado...
Simplício: Por quê?
Nunes: Mal podes calcular como são velhacos, de boa fala e vorazes os procuradores e solicitadores que por aí andam. Receio muito vê-lo cair nas garras de algum desses trapaceiros.
Simplício: Pensa?...
Nunes: Mas ainda bem que sou também solicitador no foro da corte, e tenho orgulho da reputação de probidade e de dedicação, que ninguém ousa disputar-me. O trabalho me sobra, e o tempo me falta.
Simplício: Isso é muito bom.
Nunes: Mas para servi-lo, ofereço-me de corpo e alma para concluir em poucos dias todos os negócios que tem com seu irmão e sem escândalo e nem desgosto.

Simplício dá uns tapas nas costas de Nunes, sorrindo.

Simplício: Oh! Meu bom amigo!
Nunes: Pode me chamar assim. Também gosto muito do senhor. Amanhã há de jantar comigo: Quero apresentar-lhe minha mulher que é uma santa, e minha filha que é uma flor do paraíso.
Simplício: Será um gosto.
Nunes: Preciso ir até ali, no balcão. Já volto, amigo.

Nunes sai da mesa e vai para o balcão, ficando de costas para Simplício.
Simplício pega a luneta e aponta para Nunes, que não vê.
Simplício enxerga um Nunes diferente, manipulador, trapaceiro, um grande falsificador de documentos, que furtou a firma de um juiz.
Simplício continua olhando pela luneta, e se vê na mente de Nunes, e vê que ele sabe tudo sobre a fortuna, e que já pensa em difamar o irmão de Simplício e negociar os bens em prejuízo de seu cliente.
Simplício tem horror de Nunes, mas guarda para si.
Ele fica triste, mas procura se manter do mesmo jeito diante do seu “amigo”.
Simplício paga a conta e logo sai do bar. No caminho pensa:

Simplício: Que homens! Que gente desmoralizada, ardilosa e má! Isto deve ser talvez devido à influência do ofício: eles têm tantas vezes de procurar, de trabalhar em proveito de causas injustas, têm tantas vezes de contrariar a verdade, a justiça, a inocência, e o direito, que acabam por habituar-se ao dolo, à mentira, e ao sacrifício de todas as noções do dever.

E, olhando para a sua luneta.



Simplício: Há de ser assim, e nem pode ser de outro modo; porque a minha luneta mágica, que me faz ver o íntimo dos corações, não me deixa cair em falsas apreciações.