A caixa de segredos

Em uma cidadezinha do Brasil existiu uma pessoa interessante. Era alguém misterioso, complexo, difícil de ser entendido ao primeiro olhar, a não ser que você conseguisse olhar para ele por mais de dois minutos ininterruptos. Acho que ainda assim não seria possível conhecer o íntimo desse ser humano incrível que deixou rastros nas vidas de todos. Era daquelas pessoas das quais ao invés de dizermos sempre da falta que nos faz essa sua ausência, se fala “como foi bom ter desfrutado da presença dele”. Um amigo que fazia gosto. Era o sentido exato da palavra amizade. Simplesmente ele era assim. Nem mais, nem menos.
Ele tinha uma caixinha. Pequena, sim, mas abundantemente rica. Pelo menos era o que ele nos falava. Só que não mostrava para ninguém, a não ser alguém em quem ele muito confiava. Era sua caixinha de segredos. Desde que o conheci e tomei conhecimento da existência dessa caixinha, eu e minha intrépida curiosidade ficávamos imaginando o que poderia conter dentro daquela caixinha pequenina, onde não se podia guardar muita coisa. Que segredos poderiam estar trancados no interior daquele objeto? Uma carta de um grande amor que passou pela vida dele? Várias pequenas fotos de pessoas que ele gosta? Tem gente que coleciona isso. É uma forma de lembrar.
E ele não escondia e ninguém que tinha esta caixinha. Só o conteúdo é que era uma incógnita. E como incomodava não saber o que tinha ali dentro. Parece que ele gostava de fazer esse jogo e aguçar a curiosidade dos amigos todos. Só mesmo a Lia conhecia o que havia dentro daquela caixinha. E não contava isso a ninguém, nem sob tortura. E como torturávamos aquela menina. Brincadeira sadia, claro, mas ainda assim, era uma tortura psicológica. Inventávamos inúmeras situações para que ela dissesse o que tinha ali dentro. Mas nada saía daquele túmulo. Nem brincando de verdade ou consequência ela soltava algo. E pagava os micos mais pesados por causa disso. É... Nela ele podia confiar.
Aos poucos eu pude conhecer essa criatura incrível e enigmática, tudo na mesma proporção. A verdade é que aquele amigo me fascinava. Sim, ele testava seus amigos para saber em quem poderia confiar. Fazia isso sistematicamente. Uma defesa, talvez. Ou apenas o jeito dele ser mesmo. Enfim, o fato era que ele sabia exatamente como testar cada um de nós. Fazia isso magistralmente. Era impossível não cair no jogo dele. Se isso era bom ou ruim só quem pode dizer é ele mesmo. Mas aos poucos eu fui entrando no universo dele. Criativo, perspicaz, dono de uma bela voz e de um olhar que muda de acordo com sua vontade. Ou ele lhe entrega flores ou te fuzila apenas com o olhar.
Tudo o que era expressão da arte podia ser encontrado nele. Cantava e compunha de um modo magnífico. Atuar era quase como visitar o playground para ele. Nem parecia trabalho. Ele se divertia à vera diante das câmeras ou sobre um palco. Desfilava também, pois sempre foi esguio, muito por causa da dança. Ah, dançava também! Era um artista com alma de artista. Uma pessoa que jamais teria aborrecimentos no trabalho, pois seu trabalho era também seu maior lazer. Nem via o tempo passar quando estava “trabalhando”. Acompanhei algumas de suas tarefas. Ele chamava a todos para vê-lo. Gostava de ser visto.
E com o tempo, ele foi vendo que poderia confiar em mim. Nada como o tempo e a paciência para solidificar amizades verdadeiras. E eu sei que essa foi uma amizade verdadeira. Talvez a mais verdadeira de minha vida. E o mais legal disso tudo é que eu só notei isso quando me esqueci daquela caixinha, e comecei a descobrir o quão legal era poder desfrutar da amizade dele. Os segredos tão bem guardados dentro da caixa já não eram mais importantes. O mistério já não tinha maior graça que sairmos com os demais amigos para contar piadas pelo caminho afora. Talvez porque o maior segredo fosse mesmo descobrir o valor daquela amizade.
Foi então que ele me convidou a ir ao seu quarto. Queria me mostrar uma coisa. Logo deduzi que ele finalmente me mostraria o que tinha, afinal, dentro daquela caixa tão pequena e tão misteriosa. E foi assim mesmo. A intenção era mostrar o seu maior segredo. Agora ele podia confiar em mim ao ponto de me mostrar o conteúdo. Confesso que, naquela hora, toda vontade de descobrir tudo aquilo veio com forte intensidade. Claro, já não era um sentimento mais forte que a amizade que existia entre nós, mas curiosidade é curiosidade, não é! Eu desejei saber o que poderia haver naquela caixinha.

- Toma. Abre! Você merece conhecer o segredo.
- Tem certeza? Não é uma obrigação isso. Você não precisa se não quiser.
- Eu sei. Eu sou o que mais sabe disso.
- Ta bom!

Quando abri a caixa, a surpresa virou uma grande interrogação em minha cabeça. A caixa estava vazia. Eu não podia acreditar naquilo. Fiquei tanto tempo pra descobrir o que era que havia ali, e quando finalmente consegui, era vento, ar, brisa, o nada. Ele só podia estar brincando comigo. Certamente tinha retirado o conteúdo, pra continuar o seu jogo de descobrir as verdadeiras amizades. Mas se era mais um jogo, não era legal. Brincar com a curiosidade das pessoas, eu achava, não podia ser. E eu não gostei daquela brincadeira.

- Isso é mais um dos seus jogos?
- Não...
- Como não? É uma caixa vazia. Ou isso é uma brincadeira ou...
- Quem disse que está vazia? Ela só não tem nenhum papel, nenhuma foto, nenhum rabisco apaixonado. Mas aí estão as melhores lembranças que tenho. Os maiores sentimentos.
- Difícil entender isso. Ainda acho que você está brincando comigo.
- É um direito seu achar isso. Eu guardo nessa caixa tudo de bom, porque eu não vivo com minhas lembranças. As mantenho num lugar bom, e vou viver minha vida. Quando sinto saudades de alguma delas, é só abrir a caixa, e as tenho comigo.
- Que estranho.
- Sim. Na verdade a maior caixa de segredos que você jamais enxergou, sou em mesmo. Dificilmente alguém consegue desvendá-la. Imagine abri-la. Só quem deseja me conhecer além das aparências consegue invadir essa caixa fechada que eu sou. E estes são os amigos que eu guardo nessa caixinha aí, por toda minha vida, porque estes eu sei que não vou perder em momento algum. Eu não preciso ficar te contando todos os dias que você é importante pra mim, pois nossa amizade já sintetiza tudo isso.

Fiquei sem palavras... Naquele momento eu entendi que não é um bem físico que faz das pessoas importantes ou não para alguém. É o sentimento que cada um desperta nos outros. Ali eu enxerguei, pela primeira vez em minha vida, que eu tinha um amigo de verdade. Consegui separar os tipos de amigos que me cercam. Ele me fez entender o quanto vale a pena esse sentimento, e o quanto é bom poder conhecer alguém ultrapassando as barreiras da aparência e da superficialidade, coisa inclusive que a grande maioria das pessoas não consegue fazer, vivendo em uma sociedade puramente de aparências.
E descobri, enfim, que existem coisas muito mais importantes que uma caixinha de segredos que alguém guarde. Aliás, aquela caixinha, usada com subterfúgio por ele, era só um pretexto para que as pessoas pudessem conhecê-lo melhor, movidos pela curiosidade, sim, mas que chegassem ao fim dessa jornada gostando mais do que havia nele do que do que tinha naquela caixa. Hoje, eu tenho o maior orgulho e prazer em dizer que aquela pessoa interessante é meu amigo. Pode não ser pra vida inteira, pois é bobagem contar tempos futuros, mas, por minha vontade, o chamarei assim por muito, muito tempo.

* Este é o texto com o qual eu participarei do concurso da Editora Guemanisse.
** Hoje é aniversário do incentivador da criação deste blog. Parabéns e muitos anos de vida, Cláudio Rizzih!!!