Para falar de um amigo!

Um dia conheci uma pessoa que veio a ser um amigo. Não um amigo qulquer, como tantos que temos pelos caminhos das nossas vidas, mas um daqueles amigos que, ainda que o destino separe, encaminhando-o por caminhos distintos dos nossos, nunca deixará de ser um amigo. É o tal do amigo do peito. E foi assim, num instante, não mais que repentinamente. Incrível como algumas coisas acontecem em nossas vidas de modo tão inusitado que, por vezes, imaginamos ser até irreal. Como poderíamos acreditar que duas pessoas tão diferentes pudessem manter um diálogo? Qualquer que fossem as palavras, normalmente, um acharia o outro tão insólito que seria impossível nascer ali uma amizade.
Porém, para que haja o sentimento, de amizade, por exemplo, entre duas pessoas, sejam elas quais forem, há que existir algo muito maior que apenas vontade e algumas semelhanças, sejam elas de pensamento, ou de ação. É preciso saber olhar. Não digo aqui sobre o olhar nosso de cada dia, aquele que lançamos para as coisas. Falo de um olhar profundo, que entende a alma. Assim nascem os amigos que não precisam de palavras para dizerem o que sentem. A estes o olhar basta. E junto com o olhar, um abraço sincero, que tanto acalma quanto anima, dependendo das necessidades de quem o recebe. Um abraço verdadeiro de um amigo sincero. Uma ação como um simples abraço, ou até mesmo um aperto de mãos, só é possível se houver um mínimo de sentimento nas pessoas que participam do tal ato.
Penso que conquistar a amizade de alguém num mundo tão cheio de ódios e rancores como o nosso é algo muito complicado. Sobretudo porque a amizade implica importar-se com alguém, e em um mundo tão individualista como este em que vivemos, isso é algo quase impensável. Aprendemos que o outro é apenas o outro, nada mais. Chega a ser feio se preocupar com alguém. Demonstrar sentimento então, qualquer que seja, nem por seu bichinho de estimação, que, quando amado, ama sem a vergonha de esconder seu apreço por quem dele gosta. Ainda assim, isso é feio. É ruim. Vai contra o que se espera de um homem, no sentido mais humano da palavra. Por isso, cada vez mais criamos ódios e aversões, preconceitos e muitas, muitas mágoas, por vezes gratuitas e sem sentido nenhum.
E foi ao ver com esse olhar mais profundo que enxerguei esse amigo. Livre... Senhor de si... Sincero... Sarcástico também... Aquele que fala verdades que muitos, por vergonha talvez, preferem guardar dentro de si. Um amigo que se acha tão diferente do mundo que o cerca. Um pequeno gênio, sim, pois é próprio dos gênios se julgarem incompreendidos, até porque, muitas vezes, eles mesmo não se compreendem. Um ser capaz de ver nos outros aquilo que tem medo de enxergar dentro de si mesmo. Mas que não tem medo do isolamento, pois daí nasce sempre um novo homem, em sua ótica, tal qual uma fênix. É um ser tão imperfeito quanto imperfeitos são os seres que ele enxerga, ainda que não sejam as mesmas estas suas imperfeições.
Ainda assim é meu amigo. Por quê? Primeiro porque ninguém precisa mudar nada para ser meu amigo, pois prefiro as pessoas como elas são. Depois porque por trás dessa máscara toda existe uma pessoa sensível, perspicaz, que sabe o que deseja da vida e procura trabalhar para conquistar seus anseios. Isso é um homem, tal qual Da Vinci pensou: Completo, ainda que imperfeito, pois as imperfeições não são necessariamente ruins, e fazem completo o ser que as enxerga e com elas bem convive. É diferente, e orgulha-se disso. E se isola... Vai para longe... Para onde ninguém possa vê-lo... Olha, ter amizade por alguém não é tão somente ter uma afinidade qualquer por alguma pessoa, e uma ou outra conversa interessante para recordar. A amizade é sobretudo um dom, capaz de unir gente tão diferente a um primeiro olhar, e tão semelhante quando se vê mais detalhadamente. É como o amor, porém, quando verdadeira, é muito melhor, pois o amar é instável como o mar, enquanto ser amigo é como a terra firme.
Existem tesouros que são maiores que barras de ouro ou muito dinheiro guardado em bancos. A amizade é um desses. Mas é preciso enxergar com os olhos da alma. Só assim você verá um amigo de verdade. Olhe em volta. Em cada um dos que você conhece. Consegue ver aí algum amigo? Olhe bem, com a alma... Meu amigo está aí, pelo mundo, lutando pelo sonhos que tem. Pode ser que ele voe por aí, neste mundo grande e sem fronteiras, pois hoje bate as ricas asas da sua liberdade por aí. E talvez esse caminho seja longe do meu. Mas, isso é o mais certo, jamais deixará minhas memórias, pois está guardado, como naquela música do Milton Nascimento, debaixo de sete chaves, dentro do coração.

A amizade sincera é um santo remédio / É um abrigo seguro. / É natural da amizade / O abraço, o aperto de mão, o sorriso / Por isso se for preciso / Conte comigo, amigo disponha / Lembre-se sempre que mesmo modesta / Minha casa será sempre sua / Amigo
Os verdadeiros amigos / Do peito, de fé / Os melhores amigos / Não trazem dentro da boca / Palavras fingidas ou falsas histórias / Sabem entender o silêncio / E manter a presença mesmo quando ausentes / Por isso mesmo apesar de tão raros / Não há nada melhor do que um grande amigo
(Letra de “Amizade Sincera”, de Renato Teixeira)