Livro em cena: "Além do infinito azul"

Olá, amigos! Hoje estou começando a compartilhar com vocês uma nova aventura minha, desta vez no campo dos roteiros. Claro, esta é uma primeira experiência. Muito há o que melhorar ainda. Aqui, ao menos uma vez por mês, tentarei colocar uma cena de um dos muitos bons livros que temos em nossa tradição literária. Será o meu olhar sobre uma passagem destas histórias, pois, num roteiro, quem escreve coloca o próprio olhar acerca da cena. Este olhar é modificado de acordo com a visão que o diretor terá ao ler o roteiro, e incrementado com as impressões daqueles que dão vida às palavras colocadas no papel: Os atores.
Nesta primeira aventura, escolhi o romance “Além do infinito azul”, de Antônio Demarchi. Apesar de ser um livro considerado espírita, trata-se de uma história muito bem construída, com uma sensibilidade incrível do autor. Se o livro foi ditado por algum espírito ou não, não é do meu interesse aqui. O que vale é que neste romance existe uma história linda, e é sim, este livro, uma obra literária, e, assim, uma obra de arte. E é assim que penso que deve ser apreciada a leitura deste livro, assim como dos grandes clássicos da nossa literatura, como uma obra de arte. Espero que vocês gostem. Tentem embarcar na história e vivenciar a cena.
Uma explicação da cena: Virgílio e seu grupo, guiados por Aurélio, precisam ajudar o espírito de Leonardo, que está na taverna de Razor, em um lugar obscuro do astral, e corre perigo.
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CENA – TAVERNA DE RAZOR / INTERIOR / PENUMBRA

O grupo de Virgílio entra na taverna. É um ambiente asfixiante, debilmente iluminado por algumas tochas, numa penumbra constante. Mostram-se mulheres seminuas, e homens se divertindo promiscuamente.
Aurélio observa as pessoas como se estivesse procurando por alguém.
Virgílio identifica a presença de pessoas encarnadas, pelo cordão fluídico.

(Pode ser feito por computação gráfica, onde se cria algo como cordões amarrados às mãos, pés, testa, peito e ventre, sempre com um estilo/tom psicodélico, para efeito e ambientação da cena).

Virgílio toca em Aurélio, chamando sua atenção, e aponta para as pessoas com cordão fluídico.
Aurélio Explica:

Aurélio (Com voz serena) – Virgílio, quando em período de repouso, o espírito encarnado desvencilha-se do corpo denso e, livre das amarras materiais, busca os ambientes que lhe são apropriados. Os que são propensos ao bem, certamente nas horas de sono encontram-se com aqueles que lhes são afins. Todavia, aqueles que se situam em condição vibratória do desejo e do gozo, cuja sintonia moral apresenta um diapasão mais baixo, aportam em regiões como esta. Cada caso é um caso. Hoje, por exemplo, estamos aqui para ajudar um jovem que encarnou com uma importante missão a cumprir, cuja sensibilidade mediúnica está à flor da pele, e embora tenha recebido diversos chamados, tem resistido aos apelos. Inimigos contrários ao sucesso do rapaz o têm atraído para cá, onde um amor do passado o retém e escraviza a serviço das forças das sombras. Nossa intervenção é necessária, pois caso contrário, o processo obsessivo se tornará demasiadamente perigoso, colocando em risco a sua missão.

Virgílio fica pensativo, tentando assimilar tudo o que ouviu. Ele tenta ver alguém com as características ditas por Aurélio.
O ambiente fica silencioso. Razor entra e se posiciona no meio da taverna. Todos permanecem quietos até que Razor dê um sinal:

Razor (Desafiador) – Quero ver se hoje tem alguém aqui para me desafiar.
Membro do grupo de Virgílio (Tom de leve admiração) – Razor é muito forte. Ninguém o venceu até hoje na queda-de-braço e todos temem desafiá-lo. Duvido que alguém aqui seja louco o suficiente para tal.

Razor vira-se para Aurélio:

Razor – Você aí! Não o conheço de algum lugar? De onde vem e o que faz aqui?
Aurélio (sereno) – Venho de um lugar muito distante, de outras paragens, onde já chegou sua fama. Estou aqui para conhecê-lo e, quem sabe, aprender com você, pois sei que também é justo e honesto.
Razor (lisonjeado) – O estrangeiro tem razão. Nos meus domínios, eu faço a justiça. Aqueles que estão comigo obedecem-me e são recompensados. Já que veio de longe, quero que sinta o privilégio de aceitar meu desafio, uma vez que ninguém o fez, e dispute uma queda de braço comigo.
Aurélio (tranquilo, olhando com firmeza para Razor) – Aceito o seu desafio, Razor!

Abre-se um clarão ao redor da mesa tosca com os dois competidores. Forma-se uma platéia ao seu redor.
Começa a disputa. Aurélio não aparenta fazer força. Semblante sempre sereno. Mas Razor não consegue mover o braço de Aurélio.
Todos, menos os membros do grupo de Virgílio, gritam palavras de apoio a Razor.
Com muito esforço, Razor vence Aurélio. Gritos alegres com a vitória de Razor.
Razor, ofegante, sente-se orgulhoso pela vitória. Levanta-se e diz:

Razor (Admirado) – Quero dizer a todos que faz muito tempo que não tenho um adversário tão valoroso como este. Faço questão de ressaltar que hoje achei que poderia perder para este amigo que veio de longe para nos visitar. Qual o seu nome, amigo?
Aurélio – Meu nome é Aurélio. E considero-me honrado por ter tido a oportunidade de medir forças com o grande campeão. Sabia de antemão que iria perder, mas de qualquer forma, foi uma satisfação que não vou esquecer.
Razor – Amigo, gostei de você e gostaria que se considerasse meu convidado. Fique aqui à vontade e depois quero conversar com você.

Todos passam a tratar os visitantes com respeito.
Virgílio aproxima-se e abraça Aurélio, que lhe confidencia:

Aurélio – Tinha que valorizar a vitória de Razor, pois assim conquistaríamos a confiança dele. Acho que conseguimos.
Virgílio (curioso) – Quem é ele?
Aurélio – Razor foi um importante general bárbaro. Chefiou muitas hordas invasoras, arrasando tudo por onde passava. Acostumou-se a mandar e ser obedecido, castigando impiedosamente os que não cumpriam a contento as suas ordens. Apesar dos séculos, cultiva ainda os hábitos do passado, que se manifestam em seu espírito ditatorial.

O grupo continua a andar pelo ambiente. Aproximam-se de um canto escuro, onde estão Leonardo e Khazarina.
Khazarina envolve Leonardo nos braços, como que sugando-lhe a “energia vital”.
Leonardo Deixa-se envolver, como se estivesse sentindo prazer com aquilo.
Aurélio fala com Virgílio:

Aurélio – Khazarina foi filha de Razor e encontra-se ligada a Leonardo com raízes desde as épocas remotas. Ele conserva uma paixão pela moça que o acompanhou em algumas encarnações. Na última existência em que estiveram juntos, viveram na França no período de Catarina de Médicis. Leonardo era um nobre cortesão de espírito sensível, cujo erro foi se apaixonar por Khazarina. Ela era caprichosa, egoísta e gananciosa e Leonardo cometeu todo tipo de loucura para conquistar o seu amor. Acabou por se envolver em perseguições religiosas, cometendo uma série de arbítrios, angariando a ira de muitos inimigos. Na noite de São Bartolomeu, na confusão do massacre dos protestantes, Leonardo foi assassinado por um inimigo, ficando o crime encoberto pelo conflito.

(Pausa na fala – Focando Khazarina e Leonardo. Ele, como se estivesse bêbado, e ela, se divertindo com a submissão dele)

Aurélio – Entre uma reencarnação e outra, Khazarina, Razor e Leonardo acabam sempre se cruzando no espaço. Mas ele já conquistou sensibilidade de espírito, de forma que, logo após o tempo de preparo, reencarnou com uma missão que não poderá ser comprometida e por esta razão estamos aqui para ajudá-lo. Na atual existência, Leonardo recebeu o mandato da mediunidade com Cristo, mas preocupa-nos o processo obsessivo que se encontra instalado. Temos de agir com cautela e firmeza.

Leonardo, hipnotizado pelos afagos de Khazarina, não nota a presença do grupo de Virgílio.
Ouve-se um grito no salão. Grito normal, mas com ódio.
Surge um espírito, correndo, que aponta uma faca afiada em direção a Leonardo.
Leonardo, visivelmente assustado, solta um grito de pavor. (atenção para a expressão facial de Leonardo)
O espírito parte para cima de Leonardo, gritando:

Espírito (histérico) – Maldito! Pensa que escapará de mim? Não se satisfez em acabar com a minha família? Hei de encontrá-lo sempre, esteja onde estiver! Não haverá de me escapar.

Aurélio dá um salto e se coloca entre os dois, segurando o braço do espírito e olhando fixamente para ele. (expressão de tensão)
O espírito deixa cair a faca, e cai, tendo um choque convulsivo.
Virgílio olha em volta e percebe que Leonardo sumiu.
Khazarina, com um sorriso sarcástico, sai do ambiente.
Todos voltam ao ritmo normal do ambiente, como se nada tivesse acontecido.

Virgílio (procurando Leonardo com intensidade, mas só no olhar, sem sair de perto do grupo) – Cadê o Leonardo?

Aurélio – Virgílio, o espírito encarnado, quando em estado de desdobramento pelo sono, mantém-se ligado ao corpo físico pelos laços fluídicos que você observou. Ao primeiro sinal de perigo, instintivamente volta para o refúgio do corpo carnal num átimo de segundo. Leonardo deve ter acordado agora de um terrível pesadelo, com o coração descompassado e uma sensação desagradável pelo perigo vivido. Por hoje já é suficiente. Vamos embora, que ninguém notará nossa ausência. Razor possivelmente irá notar, pois disse que queria conversar comigo, mas ainda não é a hora adequada.

O grupo vai embora sem ser notado. Eles saem com a festa quente, todos dançando, bem preocupados com o próprio divertimento e sem notar ninguém mais.