Afinal, o que é ser homem?

Claro que meu questionamento não é sobre a definição clássica do homem, explicitando o que o diferencia da mulher, fisicamente. Falo aqui de uma definição (ou da falta dela) sobre o que torna o ser humano diferente dos outros animais da natureza. É do pensar que quero tratar nestas linhas, pois, em nosso mundo, cada vez mais se cultua o físico perfeito, imitando-se ao máximo o “Davi” de Michelângelo, que se chega ao cúmulo de desestimular e desacreditar o homus sapiens, ou seja, o homem que pensa. Pessoas matam, enganam, destroem, e ainda são capazes de dizer que fazem isso tudo por amor, com a cara mais limpa e sorridente do mundo.

Situação 01: “-Vai, cara, dá um tapinha, pô! Ou você não é homem?”
Situação 02: “- Tá com medo de me enfrentar, sua bicha? Cai pra dentro, rapá!”

Não é raro encontrarmos no mundo pessoas que cultuam um ódio gratuito contra aqueles que não têm um corpo sarado e cheio de músculos à mostra. São estes os alvos preferenciais dos que só pensam em arregimentar hordas de seguidores à sua volta (que se agrupam em torno desses “líderes” conhecidos pela força física) justamente porque os homens que não costumam usar os punhos como base de argumentação não sabem como se defender desses sujeitos a não ser com as palavras e com a educação que lhes foi ensinada. Pensar é palavra em desuso no mundo de hoje. Consumir é a ordem. Sem isso, você fica tão feio quanto letra de médico. Ninguém vai sequer tentar entender você. A sociedade das aparências precisa de escolas fracas e pessoas burras para se manter “em alta”, tanto quanto você depende do ar pra respirar e se manter vivo.
O grande problema é que nossa sociedade não está nem um pouco interessada em pessoas que pensam, pois estes certamente vão notar que há alguma coisa errada nessa dinâmica. Não é preciso perder horas fazendo o cérebro funcionar para se entender que o sistema está errado. Então se cria um universo de consumo, onde você precisa comprar, comprar e comprar, pois só assim estará sempre bonito, na moda. Academias vivem lotadas, vendendo a idéia de que as pessoas só olharão para você se seu corpo estiver com tudo em cima, sem gordurinhas nem rugas, ambas indesejáveis por quem só consegue se enxergar como gente quando está diante do espelho.
As baladas, então, são uma notável constatação de regressão humana aos tempos selvagens, onde o mais forte sempre subjuga o mais fraco, ganhando todas as impressionadas (e interesseiras) fêmeas, que usam de sua sensualidade, mesmo não sabendo formar uma frase inteligível, para conseguirem tudo o que desejarem. Os machos sempre, nessas baladas, trocam socos e pontapés, por vezes de modo covarde, somente para impressionar as “gatinhas”. E o pior é que elas gostam e nutrem esse estado tenebroso. Para elas, melhor um macho burro, que elas conseguem deixar mais tapados ainda, e do modo mais fácil, que um ser pensante, que não cai facilmente em suas ardilosas tramas.
Assim, cada vez mais, vemos que o intelecto vem sendo paulatinamente substituído pela força física e pela brutalidade. Uma sociedade de boçais não incomoda ao sistema, pois não pensa. Ao invés de exigir ética dos seus governantes, faz piadas com as situações vexatórias que vemos. E não passa disso. Não se mobiliza para nada. Afinal, nem é conosco mesmo! Pra que vamos trabalhar, crescer como pessoa, se nós temos o bolsa-família de graça, sem termo que nos esforçar pra nada?
Ser homem é, sobretudo, saber que se tem um cérebro capaz de produzir tudo o que vemos e do que nos servimos no nosso dia-a-dia, pois tudo o que há no mundo um dia passou pela mente de um homem. Da roda à energia elétrica, nada que tenha sido construído nasceu de modo espontâneo. Tudo foi pensado por alguém antes de existir, exceto a natureza, embora até a modificação dela seja culpa do pensamento humano, e de sua capacidade de exploração dos recursos naturais.
Do futuro nada sabemos. É verdade que o presente é o que mais importa. O problema é que as pessoas não usam o presente para serem melhores e mais capazes de compreender as coisas e lutar pelo que realmente importa. Não há nada melhor que bons amigos, em quem podemos confiar e com quem podemos sair e nos divertir de forma sadia, sem precisar agredir ninguém pra se sentir bem. Mas se procura, cada vez mais, aqueles amigos de balada, que só ficam perto do musculoso porque, na realidade, morrem de medo de serem vitimas dele. Não são amigos de verdade. Na hora do problema, são os primeiros a pularem para fora do barco desgovernado. E o rei fica nú, sem ninguém para ampará-lo.
A vida é curta demais para ficarmos nos perdendo em demonstrações gratuitas de ódio. Tente enxergar além das armaduras que as pessoas criam. Não fique somente nas aparências. Vá além. Você terá uma grande surpresa!