Eu prefiro os números

Perdoem-me caros poetas,
Prezados compositores,
Linguistas e semioticistas,
Confesso ter-me bandeado
Para a turma dos matemáticos
Físicos, químicos e numerólogos
Admito que por pura acomodação
Pois os senhores sabem como é,
Minha época já se passou
E eu, que antes vivia em busca
Do inesperado e das surpresas
Vivo já no segundo terço de minha existência,
Agarrado ao seguro, ao de sempre,
Àquilo que sei que não vai mudar
Foi então que percebi,
Agora prefiro números a palavras

Números não mentem, palavras enganam
Número é a luz do dia que nunca falha
Palavra é a luz do luar
Tão bela, é verdade, quanto inconstante
Números são exatos, previsíveis
Pois, mesmo quando se juntam
Das mais distintas formas e fórmulas,
Há como se prever o resultado
Já as palavras, rebeldes sem causa,
Mudam de certas para incertas
Por conta de quase nada
E quase nada, em se tratando de palavras,
Pode significar quase tudo
Números têm caráter,
Não há outro igual ao dez ou ao mil
Já palavras são vadias
Traem-nos sem pestanejar
Se num dia há um fruto para colher
No outro, se come o fruto com colher

Haverá quem argumente, eu sei,
Que números também podem ser incógnitos
De valores ocultos, o que é verdade
A isso respondo categoricamente
Que não à toa tal número
É vulgarmente chamado de x, y,
Ou quadrado da hipotenusa
Não são números, afinal
Os algarismos são diretos
Dizem o que querem dizer
Palavras são irônicas
Trocam o sentido do dito
Pelo não dito
Um simples “não” pode fazer
Toda a diferença, ou não

Chega, cansei-me, basta
Já estou velho demais
Pra esse jogo de palavras
Quero a paz de saber o fim dos meios
Ainda que me doa a alma,
Ainda que eu perca a calma
De agora em diante,
Serei um numerista, ou numerante
Darei adeus a palavras sedutoras
Mesmo que delas precise
Para reafirmar minha convicção:
Deus me livre de (não) ser um palavreador

Celso Garcia