Conto de um maltrapilho


Avoado com meus pensamentos.
Deparo-me com uma cena que nunca
Imaginei ver.

Naquele momento, tudo o que eu julgava difícil,
Tornou-se fácil.
Todas minhas concepções de verdade,
Tonaram-se mentiras.

Meus olhos fixaram na imagem
Que talvez não tivesse beleza
Nos olhos de qualquer outro.
Mas nos meus, ainda sim,
Com toda a pobreza
E falta de beleza,
Era belo.

Eu enxergava!
E não era um filme.
Era a vida.
Crua e nua.
Com toda tristeza
E felicidade.

Sim, era um homem,
Porém, não um homem qualquer.
Com seus maltrapilhos,
Levantava-se como um rei.

Olhar forte e digno de um vencedor.
Ele se direciona ao seu companheiro,
E com bondade, sede o seu pão para o outro.

Com certeza ele sabia,
Que aquele com o focinho longo
E os dentes afiados,
O seguiria para qualquer lugar.

Eu estava estagnado... Perplexo.
Era como se a surpresa quisesse
Aparecer em mais um dia desses
Que julgamos como qualquer e outro.
Mas, qual era o problema?
O problema era que o maldito do mendigo
Deu a sua comida para um vira-lata! Um Vira-lata!
E ele?! Vai passar fome?!
Não conseguia acreditar.

Perguntava-me:
Se ele é capaz de ajudar um ser,
Por que nós não somos capazes de ajudar ele?
E o silencia se aconchegava em minha mente...

Talvez a solução exista,
Mas a pena e o medo não nos deixa exerce-la.

Sandro Aragão