Cinza

Tinha algo escrito no céu, eu só não conseguia ler, talvez fosse uma inspiração... As nuvens formavam frases, e enquanto conversava pelo celular, eu tentava decifrar.
- Como está o dia aí? – Ele perguntou enquanto tragava.
Eu não o via, mas tinha certeza que estava tragando. A voz dele saiu pelo nariz, enquanto a boca se ocupava com ar e nicotina. Eu sabia, eu tinha certeza. Tudo culpa da intimidade excessiva...
- O dia está exatamente do jeito que você gosta: Cinza. Eu não sou Apaixonada por dias cinza, mas o de hoje está realmente me agradando... –
- Em dias cinza, eu me vejo no céu... – Disse depois de algum tempo.
Segurei na soleira da janela e fiquei olhando o vale, e o modo como lentamente, a neblina tomava conta da cidade, escondendo os arranha céus, dando a ilusão de que cada um deles havia sido cortado ao meio.
- O vale é estranho. – Disse enquanto olhava para um dos prédios mais altos da região.
- Porque você diz isso? – Perguntou assustado.
- Não sei... Mas é estranho olhar como estou cercada. Em fim, a vista daqui é linda, e eu queria que você estivesse aqui agora. – Senti que quando cheguei perto do final de minha frase, ele sorriu.
- Eu sou um céu nublado, um dia cinza. Você é um morro verde, cheio de sol. –
- Então, agora, nesse momento, a neblina que vem de ti está me abraçando... –
Silêncio.
Os carros transitavam pela rua movimentada, uma brisa leve abalançava meus cabelos, e por entre as nuvens escuras podia ver um sol tímido.
Os morros não estavam sós, mas eu estava.
E eu continuava tentando ler o céu, sem sucesso. Fiquei sem inspiração.
Via apenas morros cobertos por véus, arranha céus pela metade. Mas não lia o céu. Deveria estar escrito na linguagem dos anjos.
- Eu Te Amo, até manhã! – Disse antes de desligar.
- Eu Também te Amo! – Respondi.
Deixei a janela, deixei os morros, trouxe a saudade comigo, ela não poderia ficar ali sozinha.
Quando os anjos decidirem traduzir pra mim o que estava escrito eu volto naquela janela para ler. Por enquanto, sigo curiosa. Tomada de Saudade, querendo voltar a ser um morro verde cheio de sol. Querendo que tu me abrace, e não a neblina.

Andresa Alvez